Fantástico - Rede Globo deu visibilidade ao trabalho das parteiras

Janete Capiberibe*

Foi com grande expectativa que o Brasil inteiro esperou o último parto apresentado na Série Grávidas, no Programa Fantástico, da Rede Globo de televisão, coordenado pelo Dr. Dráuzio Varella.

Foram meses e semanas de acompanhamento e informações sobre a gestação, o parto e o nascimento. Eram diferentes mulheres, distintos lugares desse imenso Brasil. Suas dúvidas, medos, coragem, participação paterna e familiar, tudo muito bem conduzido pelo competente Dr. Dráuzio. Porém, o melhor estava para ser visto, o último parto, o de Alcileide, de Irantuba, no Estado do Amazonas, por uma parteira tradicional da região, dentro de sua própria casa.

O assunto pode ser polêmico, mas temos que acreditar que a mais antiga profissão do mundo é a das parteiras. No Velho Testamento, Êxodos, capítulo I, versos 15 e 16, em que o rei do Egito ordena às parteiras Séfora e Fuá que subtraíssem a vida dos recém-nascidos homens e poupassem a vida das mulheres. Desnecessário dizer que Séfora e Fuá, como boas parteiras, desobedeceram ao rei.

E mais uma vez, a rede Globo mostrou que essa atividade continua e somam mais de 60 mil mulheres em todo o Brasil. Vale ressaltar, que em 1998, a mesma rede de tv, cumprindo com sua missão jornalística, transmitiu em horário nobre, no Jornal Nacional, o I Encontro Internacional das Parteiras da Floresta, ocorrido no Amapá, que contou também com a cobertura e o apoio da TV Amapá, da Rede Amazônica, afiliada da Rede Globo, onde tivemos a oportunidade de dar visibilidade a essa prática do parto domiciliar humanizado exercido pelas parteiras tradicionais.

As parteiras tradicionais são mulheres humildes, sábias, de grande força interior e iluminadas. A maioria não teve oportunidade nem de conhecer as letras, mas é profunda conhecedora do ventre grávido de uma mulher e o milagre do nascimento. Elas chegam aonde não chega nada. Onde não chegam os médicos, não chegam os enfermeiros, os técnicos ou auxiliares de enfermagem, elas estão lá, sorridentes, felizes, com sua sacolinha contendo o kit das parteiras, para dar à luz a mais uma criança. Trazem ao mundo cerca de 450 mil crianças ao ano, número este que não soma àqueles que vêm ao mundo sem nenhum registro, que nascem das mãos de parteiras nos mais longínquos lugares das florestas.

No Amapá, quase 90% da população, composta de cerca de meio milhão de habitantes, chega ao mundo pelas mãos de cerca de 950 "pegadoras de menino". Campeão no Brasil em partos normais - e ostentando o segundo mais baixo índice de mortalidade infantil -, o Estado do Amapá fez do nascimento tradicional uma política pública. Recentemente a ONU considerou o Amapá o décimo melhor em qualidade de vida no Pais. Num País onde os partos cesarianos prevalecem, o Amapá conquistou o menor índice do Brasil: apenas 11% e as taxas de mortalidade infantil e materna são baixas. Essas mulheres também fazem a diferença nas estatísticas do Ministério da Saúde que já despertou para o assunto. Num país em que sete mulheres morrem a cada 10 mil partos feitos por cesariana, elas contribuem para um dado menos assustador: o número de óbitos cai para dois a cada 10 mil partos normais.

Lutar pela prática do parto e nascimento humanizado é nossa missão como também, é sua Dr. Dráuzio. No Amapá, no Acre e em outros Estados do Brasil, onde as redes de serviço de saúde não se desenvolveram a necessária capilaridade, lutamos para a formação das associações das parteiras e suas articulações com o Sistema Unificado de Saúde, como forma de ampliar a cobertura e sensibilidade do sistema, e a consolidar programas de atenção ao parto domiciliar baseado, entre outros, na inclusão social e no reconhecimento das parteiras pelo SUS e, nesse sentido, em breve estarei dando entrada, nessa casa, em Projeto para que isso aconteça.

Parabéns à Rede Globo, em memória ao jornalista Roberto Marinho, à equipe do programa Fantástico e ao Dr. Dráuzio Varella.


* Janete Capiberibe é Deputada Federal pelo Amapá, foi Vereadora, Deputada Estadual por três mandatos no Estado, foi Secretária de Indústria, Comércio, Mineração, Turismo e Ecoturismo do AP, primeira-dama durante oito anos onde, entre outros trabalhos, capacitou as parteiras do Estado.