A PRAÇA
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Até quando morei na casa de meus pais, em Volta Grande/MG, havia na cidade uma praça que não admito esquecê-la jamais. Seria negar o passado e o hábito que sempre tivemos de valorizar as coisas simples e bem cuidadas . Sei que até hoje o povo de lá se encontra na praça, conversa na praça, faz da praça um espaço de socialização das crianças e principalmente iniciam-se nela boa parte dos flertes que terminam em casamentos entre rapazes e moças.

A partir dessa praça os bares se enchem, as fofocas se espalham, os compromissos se iniciam, a educação ambiental se consolida. Esta praça é tão simples quanto linda, limpa e da cidadania. Simples porque tem por base o gramado e o calçamento de bloquete, além de florida, bem iluminada, provida de bancos de cimento e dona de um coreto bem central. Linda porque nem o frio e nem a estiagem mudam a cor verde das folhagens e o colorido das flores, por bem tratadas que são o tempo inteiro. Limpa por causa do jardineiro que a cuida e do povo que a frequenta, plenamente conscientes de que não se pode sujá-la sequer com o papel que embala o sanduíche. E cidadã, aquela praça, porque o povo paga para tê-la e se educa o mais que pode para mantê-la.

Estando no Oiapoque, também lá vi as pessoas se encontrando na praça, grande a alegria de todos, geral a satisfação de se estar circulando por lá. Daí em diante não há mais nenhum paralelo com a aquela do meu passado.

Os elementos da praça no Oiapoque são, um campo de areia para a prática de futebol e arremesso de poeira no nariz de todos que estão presentes e dos residem em volta, uma quadra para a prática de jogos de salão, um monumento ao patrono, área coberta para pequenas convenções, dezenas de bares e lanchonetes em volta, outra dezena de barracas de camelôs, corredores cimentados, sujeira e palavrões para dar e vender.

Muito me engano, ou nenhuma árvore há no grande perímetro da praça, num cantinho reservado vi jovens recebendo aulas de capoeira, ostensivamente prejudicados pelo volume alto da música brega e dissonante que sai das dezenas de aparelhos de som que cada vendedor tem sobre seu balcão.

Tudo aquilo ali podia ser melhor, tornando mais agradável a estada momentânea de cada pessoa que comparece à única praça popular que a cidade tem. Nem precisaria ser como a praça da minha infancia e juventude, bastaria que fosse mais do povo que a frequenta diariamente, do que dos grupos vândalos que literalmente a dilapidam o tempo todo e que, com isso, embrutecem o vago sentimento de cidadania que muito lentamente vai se construindo entre os oiapoquenses.