Ciência e religiosidade na preservação do Planeta Água.

Vânia Beatriz V. de Oliveira[1]

As questões ambientais têm impelido as organizações a trabalhar de maneira participativa e colaborativa, e tendem a liderar e inspirar outras áreas a adotarem o comportamento cooperativo, valorizando os recursos locais, estimulando a participação e a ação solidária, cada vez mais premente e necessária para o alcance da vida sustentável na Terra.

Entre o conhecimento da realidade e a ação solidária para minimizar os problemas ambientais, há um longo caminho a ser percorrido. Educação, comunicação e religiosidade são elementos que os profissionais e leigos que atuam nesse campo, estão associando, nas inúmeras iniciativas que vem sendo desenvolvidas por organizações governamentais e movimento social, consolidando uma rede de educadores ambientais. Na Amazônia, esse trabalho se torna mais desafiador: fazer o usuário comum compreender que a abundância de água da região, não significa ter água de qualidade para todos.

Até bem pouco tempo, quando se questionava a uma platéia de estudantes, qual seria a principal ameaça a perpetuação da vida no planeta, a maioria apontava as derrubadas e queima das florestas. A anunciada escassez do recurso natural água nos anos 2000, que parecia ser um fato distante, já tomou conta da realidade de muitos países e chegou também, “na boca do povo”. Estudantes, donas de casa, produtores rurais, qualquer público, a maioria já aponta a conservação e uso racional da água como principal preocupação ecológica da atualidade.

O Planeta Terra é na verdade “planeta água”, 70% de sua superfície é coberta por água. O Brasil possui 13% das reservas de água doce do mundo, no entanto, o direito ao seu uso e o dever de sua conservação, não estão sendo exercitados como devem. Segundo dados da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), 20 % da população brasileira não tem acesso à água potável e 80% do esgoto coletado é lançado diretamente nos rios, sem qualquer tipo de tratamento.

No meio rural brasileiro, 90% da população não tem acesso à água potável. O desmatamento das margens de igarapés e nascentes, ou a contaminação pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, são agravantes do problema, que comprometem a produção de alimentos e a prática de uma agricultura sustentável.

A agricultura, apesar dos seus dez mil anos, permanece sendo a atividade humana que mais intimamente relaciona o Homem com a Natureza. Conseqüentemente, é para o meio rural que mais freqüentemente se voltam às pesquisas científicas, que buscam o restabelecimento do equilíbrio social e ecológico do planeta.

O XIX Prêmio Jovem Cientista - 2003, contemplou nove jovens estudantes do ensino médio até a pós-graduação, que através de seus trabalhos de iniciação científica mostraram que é possível melhorar os mananciais de água do País. Instituições de pesquisa como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, tem trabalhado na geração de novas tecnologias para a preservação e,ou recuperação dos mananciais, bem como no processo educativo de gestão dos recursos hídricos. Desde 2002, quando lançou o seu Compromisso Ambiental, vem capacitando empregados para elaborar projetos voltados a incorporação da questão ambiental à cultura institucional e para atuar como educadores ambientais.

Embora ainda muito timidamente, tem sido mais freqüente, em grupos que atuam na área ambiental, a abordagem da questão associada à cultura religiosa. Resgatar na prática cotidiana a dimensão do sagrado na relação homem x natureza, tem sido uma linha de ação em prol do respeito ao direito de todos. O teólogo e humanista Leonardo Boff, integrante da Comissão de Honra da Conferência Nacional do Meio Ambiente, considera quatro princípios básicos para o alcance da vida sustentável na Terra: solidariedade, precaução, responsabilidade e alfabetização ambiental.

Em trabalhos educativos com comunidades de agricultores familiares, pudemos observar algumas manifestações de que, é em relação a suas crenças que o indivíduo estrutura e desenvolve sua atitude em relação ao ambiente: zela, valoriza e respeita, “porque Deus lhe deu“, ou por outra, não se preocupa com o futuro, porque acredita que ”Deus proverá“.

Em geral as religiões estimulam seus adeptos a aceitar e assumir a responsabilidade do cuidado com o ambiente. A solidariedade em busca do bem comum, que está colocada na proposta da Campanha da Fraternidade lançada pela Igreja Católica do Brasil neste ano de 2004, é um exemplo disso.

Baseada no método Ver-Julgar-Agir, a proposta da campanha, cujo lema é “água, fonte de vida”, se levada a todos os recantos do País, é uma grande oportunidade de implementar ações concretas e reforçar a campanha a ser lançada no Dia Mundial da Água (em 22 de março), alertando para os desastres ecológicos decorrentes do mau uso das águas.


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1] Comunicadora Social, Mestre em Extensão Rural e Pesquisadora da Embrapa Rondônia.