A queda de Lula
As reformas prometidas pelo presidente do Brasil, do combate ao desemprego à defesa do meio ambiente, estão paralisadas.

Por Juan Arias
DO RIO DE JANEIRO

No último dia 31, o Brasil fez um exercício de memória para lembrar os 40 anos da malfadada ditadura militar que durou duas décadas e para comemorar que hoje é um país democrático sem perigo de ruído de sabres. Hoje os problemas são outros. O problema é como este país-continente de 170 milhões de habitantes, cuja distribuição de renda é a mais injusta do planeta, pode fazer crescer sua economia para que 40 milhões de cidadãos que ainda vivem abaixo do nível de pobreza possam se integrar ao sistema.

A chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seu carisma irresistível, apoiado por 52 milhões de eleitores e com o lema de que finalmente "a esperança venceu o medo", foi como um sonho, uma nova receita para "construir um Brasil novo e diferente", no qual para começar "todos possam comer três vezes por dia". Mas Lula sonhava mais: queria cunhar uma espécie de quarta via, um "novo modelo econômico" e uma forma diferente de fazer política, e começou fazendo promessas. Depois de ter rechaçado a "herança maldita" recebida de seus antecessores, jurou que reconstruiria o Brasil.

Mas pouco a pouco o ex-torneiro mecânico foi percebendo, como ele mesmo afirmou, que "ninguém pode pedir milagres, pois não sou Deus" e que a felicidade para um presidente só existe "do momento da vitória até a posse", já que depois "tudo são amarguras". São as amarguras de demasiadas goteiras que ele encontrou na casa herdada. Goteiras de todo tipo. Para tratá-las, criou um governo gigante de 36 ministros, quase todos de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT, de esquerda). No início do ano substituiu vários ministros que, na opinião dele, não funcionavam; mas 15 meses depois do sonho de mudança muitas goteiras continuam abertas. As mais visíveis são as seguintes:

- Desemprego. Lula havia prometido criar em quatro anos 10 milhões de novos postos de trabalho, mas 2003 acabou, sobretudo na Grande São Paulo e nas principais grandes cidades, com o maior desemprego (19%) dos últimos 18 anos.

Hoje 54% dos trabalhadores são informais, sem qualquer contrato de trabalho e sem direitos sindicais.

- Fome Zero. Devia ter sido o programa-estrela de Lula, que quer exportá-lo para o exterior, mas está praticamente paralisado. Foi substituído o ministro responsável pelo projeto, José Graziano, amigo de lutas políticas de Lula durante 40 anos. O projeto encontra dificuldades por motivos burocráticos e porque é disputado pelas prefeituras, pois dá muitos votos, a Igreja e o PT, que gostaria de controlar o projeto com novos critérios, na sua opinião mais democráticos. O novo ministro, Patrus Ananias, é amigo da Igreja.

- Reforma agrária. Se alguém tinha força moral e política para abordar no mesmo dia de sua posse a tão esperada e necessária reforma agrária era Lula, fundador do maior partido de esquerda da América Latina e um dos criadores do Movimento dos Sem Terra (MST). De fato, o novo presidente disse assim que chegou que com ele o MST "não ia precisar invadir terras". Não foi assim.

Como a reforma nem começou, o MST continua com as invasões, e com maior virulência.

- Analfabetismo. Lula, que por ser pobre quase não pôde estudar, havia prometido acabar em quatro anos com a chaga dos 20 milhões de brasileiros que ainda não sabem ler nem escrever. Seu ministro da Educação, o intelectual Cristovam Buarque, havia considerado o projeto de alfabetização como a abolição da "segunda escravidão". O ministro também queria que nenhuma criança de 4 anos ficasse fora da escola e transformar o ensino médio em obrigatório. Foi afastado do cargo por exigir mais verbas para a educação.

- Favelas. Uma das promessas de Lula que repercutiu em todo o mundo foi a de dar aos milhões de favelados das grandes metrópoles a propriedade de seus casebres, para que assim se transformassem em cidadãos legais, com um endereço postal e a possibilidade de abrir uma conta bancária. Também serviria para desacelerar a violência acumulada nessas comunidades dominadas
pelo tráfico de drogas. O projeto ainda não decolou.

- Reforma trabalhista. Era uma das mais urgentes. Lula, primeiro sindicalista a chegar à presidência, queria dar um empurrão em toda a política sindical e trabalhista, num país onde a carga fiscal para os empresários é enorme e dá lugar a milhões de empregos ilegais. Cinqüenta por cento dos trabalhadores não têm contrato. Essa reforma, segundo o governo, não poderá ser efetuada antes do próximo ano.

- Segurança. Depois do desemprego, o problema que mais perturba os brasileiros é o da segurança civil. Basta pensar que São Paulo, com seus 16 milhões de habitantes, é a cidade do mundo com maior número de carros blindados, porque também é a de maior número de seqüestros de pessoas por dia. Lula prometeu reformar toda a segurança, mudar a polícia, a mais corrupta do mundo e a que mais mata, e declarar guerra ao narcotráfico. O responsável escolhido por Lula para o projeto foi demitido. O programa está empacado e a insegurança cresceu.

- Meio ambiente. Com um território como a Amazônia, dez vezes maior que a Espanha, com 26% da água potável do mundo e um dos territórios mais saqueados em sua enorme biodiversidade, o Brasil precisava de uma política ecológica profunda. Lula nomeou para o Ministério do Meio Ambiente Marina Silva, que nasceu na selva e é uma das políticas mais empenhadas no setor e mais honrada. Mas ela esteve a ponto de demitir-se várias vezes e, ao que parece, em 15 meses não teve nenhum encontro a sós com o presidente.

- Índios. No Brasil, a comunidade indígena supera 300 mil pessoas e é considerada a mais conscientizada social e politicamente da América Latina.
Os índios tomaram consciência de sua identidade e a defendem com força.
Tanto os indigenistas mais ativos como a Igreja, que sempre esteve ao lado dos índios, acusam o governo Lula de tê-los abandonado a sua sorte.

- Infra-estruturas. Nesse país há mais de cem obras importantes, começando por estradas e portos, paradas no meio da construção. Não existem praticamente trens, e os exportadores se queixam de que não adianta produzir milhões de toneladas de soja e trigo se depois não têm como transportá-las para enviá-las ao exterior. Era um dos grandes projetos de Lula, sobretudo a reativação das ferrovias, tanto de carga como de passageiros. A burocracia e a falta de verbas não deixam o projeto avançar.