Quem será o próximo?

José Amoras*

Talvez agora a questão agrária ande um pouco mais célere. É, sim. Quando alguma personalidade estrangeira morre no Brasil parece que todo mundo acorda. Ou não. Apenas toca no assunto faz um barulho danado e tudo se esvai num ralo não sei para onde. Bom, não é isso que esperamos para nossas questões seculares mais sérias, como por exemplo, a agrária.

Morreu uma mulher chamada Dorothy Stang. Sua passagem pela terra foi das mais gloriosas quando se trata de direitos humanos. Lutou o que pôde para ver justiça na Amazônia quando se trata de moradia, alimentação e trabalho através da utilização da terra. Uma amazônica que nasceu em terras americanas. Mas e agora? O que faremos com essa situação que nos foi jogada na cara? Não somente com o fato da querida freira ter morrido. Mas essa ferida que se expõe diante da gente de vez em quando: gente morrendo de fome diante de tanta fartura amazônica.

A Comissão Pastoral da Terra em seus dados informa que no período de 1995 a 2003, 113 trabalhadores rurais foram assassinados no vizinho Estado do Pará. Mas vamos aumentar o tempo: de 1986 a 2002 foram 386 assassinatos. De 1971 a 2002, 726 trabalhadores perderam suas vidas. A CPT informa ainda que entre os responsáveis pelos crimes, somente sete pessoas receberam condenação.

A WWF-Brasil também informa que 125 assassinatos tiraram a vida de lideranças e trabalhadores dos movimentos rurais durante o governo Federal do PT. Desses, 40% ocorreram no Pará.

Os índios também sofrem. E isto não é nenhuma novidade. Só um exemplo: os Guarani Kaiowá no Mato Grosso, que vivem na terra indígena Nhanderu Marangatu foram ameaçados de perder suas terras por uma ação de reintegração de posse. Acontece que a área está dentro em território reconhecido pela Funai desde 1999.

Irmã Dorothy vai juntar-se a Frei Luciano Santos de Andrade, padre Josino, padre Henrique, Frei Tito de Alencar e outros guerreiros que entenderam a mensagem do Homem de Nazaré.

Certamente que eles velam pela luta de seus amigos e irmãos, cuja missão de promover a Justiça agrária ainda tem muito o que caminhar. É lógico que os assassinos e mandantes deverão ser punidos. Mas ficamos com muitas perguntas.

Quem será o próximo?
De quem será o próximo sangue a lavar a terra de tanta crueldade com os agricultores?
Teremos ainda que vivenciar por quanto tempo esse abandono político?
Por quanto tempo teremos ainda que agüentar essa omissão política?
Não temos homens suficientes e eficientes politicamente para encarar de frente o problema agrário?
Até quando veremos nossas Dorothys, nossos Jozinos, nossas Marias, nossos Josés, sendo apedrejados apenas por quererem cultivar a terra dada por Deus?
Teremos que nos separar ainda de quantos irmãos que trabalham por Justiça, e são injustiçados?

*José Amoras é jornalista e presidente do Centro Acadêmico de Direito do Ceap - Centro de Ensino Superior do Amapá.