UMA QUESTÃO DE RESPEITO

João Silva

O Senador José Sarney sistematicamente comete uma desconsideração que chateia os amapaenses. No auge do escândalo da Sudam falou quase duas horas à nação sem citar uma vez sequer o nome do Amapá. Fez a defesa emocionada da filha, declarou amor ao Maranhão, atacou adversários políticos, relembrou seu tempo de presidente, mas sobre o Estado que representa nenhuma palavra. Novamente ficou nos devendo pelo menos um pedido de licença para tratar de um assunto pra lá de escabroso, que não foi protagonizado por nenhum amapaense, utilizando para isso, o extenso e confortável mandato que lhe demos de mão beijada.

O Senador sabe que por aqui sua indiferença não lhe causa transtornos, ou quase isso. Na verdade, uma ou outra voz poderia criticar essa atitude na imprensa, mas nada que fosse relevante. Portanto, longe de ser cobrado como deveria, Sarney segue fiel aos dois discursos de sempre, desde que pisou em solo tucuju: um para os eleitores do Amapá e outro para o Brasil; este faz em nome do Maranhão (“A minha pátria começa no Maranhão”). Convenhamos, o bom senso deveria impor a Sarney um reparo no depoimento prestado há dois anos aos jornalistas Florestan Fernandes Junior, Nelma Salomão e Alberto Dunes, no livro “Cem Anos de Poder no Brasil”.

A gratidão e respeito ao povo do Amapá que o acolheu no pior instante da sua carreira política, são sentimentos que bem poderiam ensejar ao ex-presidente à construção de uma frase mais justa para com os amapaenses; dizer, por exemplo, que a pátria dele começa no Maranhão e termina no Amapá, mas falta-lhe humildade que aparenta ter, que o leva a nos ignorar sob o foco da mídia nacional. E porque “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”, a pátria do moço bom que dava as cartas na UDN da época da “Bossa Nova” , como ficou conhecido grupo de parlamentares que em tempos idos negociava com interlocutores mais improváveis possíveis, é mesmo o Maranhão, de fato uma terra encantadora, imortalizada nos poemas de Gonçalves Dias, um dos seus filhos mais ilustres. Quanto a nós, amapaenses, nada somos para José Sarney, que vem ao Estado em visitas formais e cada vez mais esparsas, mas nem por isso menos concorridas.

Fazemos nossa parte, e não é de hoje que nos manifestamos contra essa atitude de escrúpulo de Sarney diante das ocorrências no Amapá, relacionadas às questões política, econômica, social e administrativa. Isso deixa cada vez mais claro que o projeto do ex-presidente é pessoal; assim, gosta de ficar nos olhando de longe. Nas poucas vezes em que apoiou candidatos do.PMDB no Amapá, seus ungidos experimentaram o fel da derrota. E só abraçou a candidatura de Lula e Dalva, nas últimas eleições, porque precisava lavar a honra da filha e aplainar terreno para sua volta à presidência do senado. Entretanto, durante o governo Capiberibe e as sucessivas crises entre os poderes, com graves prejuízos para as instituições, para a governabilidade e a população do Amapá, Sarney passou batido, foi um expectador de luxo, quando sua experiência e apelo à mediação poderiam ter evitado as tormentas que ameaçaram levar o Amapá a pique.

Mesmíssima atitude de indiferença adotou também diante do grave quadro da violência no Estado, noticiado pela Rede Globo de Televisão. E não adiantava valer-se da desculpa esfarrapada de que a segurança pública é uma questão afeta ao executivo. Um senador da estatura de Sarney deveria se incomodar com a gravidade da situação e especular o fato, na tentativa de ajudar um Estado pequeno, que não tem mais que três cidades importantes: Macapá, Santana e Laranjal do Jary, nenhuma com mais de 300 mil habitantes, nenhuma com serviço de abastecimento de água e rede de esgoto que atenda 40% da sua população, nenhuma ligada ao sistema rodoviário nacional, o que quer dizer que ninguém entra por estrada no Amapá. O crescimento citado por Sarney na imprensa local, portanto, não existe. O Amapá cresceu mesmo foi na criminalidade, hoje o quarto Estado mais violento do Brasil, com 49 assassinatos para cada grupo de l00 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça. O assassinato do esportista Peter Bleyck engrossou essa estatística e deu mais visibilidade a tragédia que depõe contra a natureza pacata do povo amapaense.

Pior é que o nosso vale de lágrimas continua: a migração - que teve início com a zona de livre comércio, em grande parte feita por famílias maranhenses que fogem da exclusão social no Maranhão, segue fora de controle, a criminalidade não recua, não há geração de empregos nem investimentos de grande monta, além dos previsíveis, muitas vezes anunciados e não concretizados; segue a economia do contra-cheque, a conclusão da BR-l56 virou lenda e o “novo” aeroporto na verdade é o velho que recebe 70 milhões de investimentos para enraizar ainda mais empecilho institucional que estrangula o crescimento planejado da cidade de Macapá. Nada disso parece sensibilizar Sarney, que prestigia outros interesses, usando seu cacife de Presidente do Senado. Agora mesmo se incorpora às forças políticas do Maranhão para pressionar a instalação de uma refinaria da Petrobrás no Estado.

Mas nada de rancor com um homem de letras, dono de uma personalidade afável, que gosta de cultivar boas relações pessoais. Entretanto, é preciso que abandone (e já!) a pose de colonizador do século XXI e os políticos locais de colonizados olhando seu buana com cara de babaca. Sarney não pode mais descer por estas bandas com as mãos cheias de quinquilharias, trazendo um beneficiozinho aqui, um recurso pequeno acolá, pensando que nos contentamos com o pouco que tem nos trazido, além das mensagens gastas, repetitivas e burocráticas reproduzidas no rádio e na televisão; tão insignificante que seus correligionários trataram de atribuir-lhe a paternidade da Unifap, a regulamentação do curso de direito e o transformaram também em dono da ponte que vai ligar o Amapá à Guiana Francesa. Não podemos mais viver de aparência.

O que queremos de José Sarney é compromisso, é calor humano, é envolvimento com as causas do povo tucuju. O Amapá, das montanhas do Tumucumaque, da reserva do Piratuba, localização privilegiada em relação aos Estados Unidos e a Europa, grande potencial turístico e vocação para a exploração sustentada das suas riquezas naturais, com os seus l44 mil quilômetros quadrados de beleza exuberante, grande parte ainda intocada pela mão do homem, onde vive um povo que nunca himbernou - nem antes nem depois de Sarney, cujos ancestrais construiram uma história de luta contra invasores que queriam para seus paises esta parte do Brasil, que foi Território Federal por obra de Getúlio Vargas e a Constituição Cidadã transformou em Estado, em l988, não é e nunca será um “curral eleitoral”, ou uma terra prostrada diante da indiferença de quem se nega a pagar o que nos deve.

Ainda cabe uma observação importante, a quem interessar possa: O Amapá não se restringe a questionada relação de Sarney com os políticos: temos fibra e massa crítica! Somos capazes de cobrar de Sarney, ou de quem quer que seja, uma palavra de respeito e gratidão devida ao povo do Amapá. Afinal de contas, os dois mandatos que entregamos ao ex-presidente - que parece detestar os ossos do ofício, representam mais de quinze anos de sua vida pública. Democraticamente dois mandatos dados a Sarney pelo povo do Amapá, contraindo uma dívida que consideramos impagável, para representar bem o Estado e o Brasil! Não foi, portanto, para viver, só viver (e gostar!) da reverência, dos salamaleques dos políticos; não foi para nos ignorar, ou para homenagear a memória do empresário francês, Jean Luc Legarder, mesmo que tenha sido amigo do Brasil, e esquecer a do poeta Arthur Nery Marinho, ou a memória da veneranda mestra e poetisa Aracy Miranda de Mont’Alverne. Sarney precisa se desvencilhar do beija-mão para olhar por cima dos que o paparicam, para descobrir que o Amapá existe, que temos uma cultura bonita e gente que merece respeito.

João Câncio Picanço e Silva
55 anos (7/12/1946)
C.I. 026 809-AP
CPF-033386142-68
Nacionalidade: brasileiro
Naturalidade: amapaense
Residência: rua Jorge Luis Barata, 342- B. Jardim Marco Zero Macapá (AP)
Correspondente, no Amapá, na década de 70, das revistas VEJA e Placar, da Abril Cultural
Jornalista ( sem formação acadêmica) e servidor público municipal aposentado
Tel. (096) 241-5521