O sabor de ...

Andréa Zílio

Não sou muito ligada a datas comemorativas, ou não era. Ano passado, no 22 de julho, mudei de idade longe da família e dos amigos. Recém chegada ao Acre, confesso que me surpreendi com a boa receptividade, com direito a apagar velinhas, fazer pedidos e ganhar abraços e felicitações de pessoas com quem convivo em média 10 horas por dia. Hoje, desde meia noite e 1 minuto está sendo também muito diferente.

Vinícius de Moraes diz que amigos não se faz, reconhece-os. E tenho reconhecido muitas pessoas maravilhosas neste estado. Sem esquecer, em momento algum, dos que estão nas doces lembranças, por serem insubstituíveis.

Passei a ver o aniversário de outra maneira. Nós seres humanos, gostamos, e talvez até precisamos criar datas para refletir sobre a importância de determinado assunto. E o aniversário é isso. Uma oportunidade para nos olharmos, vermos quem somos e o que estamos fazendo. Sem falar no que recebemos. Desde as felicitações desajeitadas de quem não nos conhece com intimidade mas quer fazer parte do momento, por educação, simpatia, carisma. Até os abraços demorados e gostosos, o estalar dos beijos. Presentes insubstituíveis.

Nunca vivi a crise de ver o avançar da idade como velhice. Pra mim as palavras são outras: experiência e mais emoções vividas. Podem achar que é porque ainda estou na casa dos vinte, mas acredito que não. Estou seguindo o pensamento de meus queridos pais e quero continuar com esse sentimento a cada 22 de julho que eu possa acompanhar.

Ontem, fui a um aniversário e ouvi uma pessoa ler uma poesia que merece a atenção de qualquer um, pela sabedoria de cada verso, linha e palavra. Senti um desejo e necessidade de viver mais de acordo com o que ela diz. Acho que complicamos muito a vida. Por ela ser um pouco grande está abaixo, para lerem quando puderem.

Alguns amigos estão acostumados a receber esse tipo de cartas minhas, pelo correio o internet. Talvez como maneira de suprir a minha ausência em mandar notícias. Então essa é mais uma que abro também a outras pessoas, que de alguma forma fazem parte da minha vida e nova fase, com gosto de acreanidade e a essência de povo tucuju.

Déa Zílio

Poema de VICTOR HUGO

Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim

Mas se for, saiba ser sem se desesperar

Desejo também que tenha amigos

Que mesmo maus e inconseqüentes

Sejam corajosos e fiéis

E que pelo menos em um deles

Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim

Desejo ainda que você tenha inimigos

Nem muitos, nem poucos

Mas na medida exata para que

Algumas vezes você se interpele

A respeito de suas próprias certezas.

E que entre eles

Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil

Mas não insubstituível

E que nos maus momentos

Quando não restar mais nada

Essa utilidade seja suficiente

Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante

Não com os que erram pouco

Porque isso é fácil

Mas com os que erram muito e irremediavelmente

E que fazendo bom uso dessa tolerância

Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais

E que sendo maduro

Não insista em rejuvenescer

E que sendo velho

Não se dedique ao desespero

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste

Não o ano todo, mas apenas um dia

Mas que nesse dia

Descubra que o riso diário é bom

O riso habitual é insosso

E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra

Com o máximo de urgência

Acima e a respeito de tudo

Q ue existem oprimidos, i njustiçados e infelizes

E que estão bem à sua volta

Desejo ainda

Q ue você afague um gato, a limente um cuco

E ouça o joão-de-barro

E rguer triunfante o seu canto matinal

Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também

Que você plante uma semente, por menor que seja

E acompanhe o seu crescimento

Para que você saiba

De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro

Porque é preciso ser prático

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele na sua frente e diga:

"Isso é meu"

Só para que fique bem claro

Quem é o dono de quem

Desejo também

Que nenhum de seus afetos morra

Por eles e por você

Mas que se morrer

Você possa chorar sem se lamentar

E sofrer sem se culpar

Desejo por fim

Que você sendo homem, tenha uma boa mulher

E que sendo mulher, tenha um bom homem

Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes

E quando estiverem exaustos e sorridentes

Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer

Não tenho mais nada a lhe desejar.


.