O DIA DE SÃO SARNEY

João Silva

Ando impressionado com a unanimidade de José Sarney no meio da classe política do Amapá, mas como Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra, ligo meu desconfiômetro e penso numa idéia meio maluca: criar o dia de “São Sarney” para oficializar de vez nossa babaquice, nossa tietagem injustificável por quem lidera no Senado a tropa de choque do governo contra um salário mais decente, por quem oferece banquete para o Maranhão e pente, espelho, as migalhas que sobram para o Amapá.

Mas, quando seria o dia de São Sarney?
Não, não...A idéia é que São Sarney não tenha um dia específico no calendário, como os santos da Igreja Católica, os santos de verdade, mas tantos dias quanto o próprio quisesse, porque o dia dele seria todo dia que visitasse o Amapá; eu disse que visitasse o Amapá, porque está na cara: o ex-presidente faz que mora aqui, mas na verdade, quando não está em Brasília, mora em São Luis, na praia do Calhau, de frente para o mar.

Então ia dizendo: no dia de São Sarney seria feriado estadual, não funcionaria o comércio, os bancos fechariam suas portas, não haveria aula nas escolas públicas; as repartições, a justiça, a Câmara e a Assembléia Legislativa não funcionariam para que vereadores, deputados, magistrados, comerciantes, estudantes e funcionários públicos fossem ao aeroporto render suas homenagens ao santo do dia.

O governador do Amapá não poderia ficar alheio aos festejos; teria que dar um jeito de estar no mesmo vôo em que viajaria São Sarney para antecipar-lhe as boas-vindas ,cumprimentar-lhe formalmente na sua chegada à generosa terra tucuju e, a seu lado, aparecer sorrindo e feliz nas fotos que iriam ilustra o noticiário dos jornais; também nenhum compromisso privaria o governador de plantão da companhia de São Sarney enquanto permanecesse em solo do Estado do Amapá.
No feriado alusivo a São Sarney, toda a imprensa seria obrigada a ficar perfilada, à disposição, com seus repórteres, cinegrafistas, locutores, e comentarista para divulgar a data festiva e as excelsas virtudes do homenageado, seus feitos e promessas - cumpridas ou não; acompanhá-lo passo a passo, enaltecendo cada achado daquilo que pensa sobre a gente, sobre o “novo” aeroporto, sobre a hidrelétrica de Santo Antônio, sobre as pontes do Oiapoque e do Laranjal do Jary, demais obras e sonhos birrentos que nuca se transformam em realidade.

Ah, outra coisa: a exemplo do que ocorre com o carnaval, nada seria resolvido a uma semana, três dias, 24 horas antes da festa de São Sarney; todas as pendências existentes no serviço público, onde quer que fosse: no governo, prefeituras, nos tribunais, nas câmaras municipais, na Assembléia, na polícia seriam resolvidas depois do Dia de São Sarney, preservados os chamados serviços essenciais; e se o feriado acontecer numa quinta, por exemplo, o expediente da sexta será devidamente enforcado.

Também no Dia de São Sarney não será permitida qualquer discordância ao que ele pregará do alto do seu bigode imperial. O que sair daquela boca santa, os políticos seguirão cegamente, mesmo que seja contra eles, contra a família deles, contra o partido deles, contra o povo, contra o Amapá e a favor do Maranhão.

Único “santo vivo” do Brasil e do mundo - filho de uma transa infeliz da unanimidade burra com a babaovice reinante, sugere ainda que no dia de São Sarney seja terminantemente proibido se fazer conchavos, muito menos pedidos a correligionários, parentes e aderentes; quem quiser pedir, terá que o fazê-lo por escrito, com antecedência devida, e sempre em benefício do povo e do Estado do Amapá.

E finalizo em tom de lamentação, coração doido, essas coisas...Quem me conhece sabe: não permito, rebato com a força necessária qualquer movimento ou individuo que tente humilhar o povo da minha terra por causa de uma decisão infeliz, ou tentar culpá-lo pela idolatria que uns poucos maus amapaenses professam por um homem que faz tão pouco pelo Amapá...A chacota nacional, portanto, que vá para o inferno, que se lixe, porque a tal fazenda de burros do Sarney não é aqui!!