SEDE AO POTE

João Silva


Peço licença aos amigos internautas para requentar um prato que os amapaenses ainda não conseguiram digerir direito: os oito meses do PT no Governo do Estado. Em primeiro lugar, não há dúvida sobre o mau desempenho dos petistas que perderam precioso tempo e credibilidade diante do seu batismo de fogo no Amapá - primeiro e único desde sua fundação, quando qualquer descuido poderia ser fatal. Estou falando da batata quente nas mãos de marinheiro de primeira viagem, estes com a dupla incumbência de governar e concorrer numa eleição pra lá de complicada.

Naturalmente ninguém se expôs tanto ou foi mais vidraça que Dalva Figueiredo, que no exercício do curto mandato de governadora e candidata, deixou a desejar; ficou bem longe daquilo que todos esperavam do Partido dos Trabalhadores entronizado no Setentrião. O benefício da lei, permitindo que a candidata disputasse o pleito no governo, deu uma indigestão no PT, já bastante debilitando pelos confrontos internos que historicamente minam a base e alto comando da agremiação no Amapá.

De fora da administração e do partido, ficou a certeza de que os petistas foram com muita sede ao pote; em delírio, transformaram a eleição de Dalva Figueiredo numa questão de vida ou morte. Daí é que literalmente enfiaram os pés pelas mãos: o atendimento ao cidadão ficou prejudicado, o serviço público virou um grande palanque e o que funcionava no executivo, funcionava com intuito de promover a candidata do partido, que apostava todas as suas fichas na força da militância bem remunerada, que se incumbiria do tom agressivo da campanha, algo considerado indispensável para que os vermelhinhos consolidassem a conquista do governo para um mandato de 4 anos.

As primeiras críticas vieram com as nomeações equivocadas, seguidas das acusações de prática de improbidades administrativas flagrantes, a incompetência quase que generalizada e outros descaminhos que todos sabem. Em menos de 90 dias de poder, o mau desempenho do Partido dos Trabalhadores cristalizou-se de vez: qualquer criança sabia que o PT ia mal. A população, que não é besta, percebeu o drama, e tratou de carimbar a vitória de Waldez Góes.

É bom que se diga, em nome da verdade dos fatos, que a decisão do eleitorado não foi apenas a favor do candidato do PDT: também foi um castigo aplicado ao Partido dos Trabalhadores, cujos militantes desconsideraram, sem qualquer cerimônia, os princípios da ética na política, ensandecidos pelo poderio da máquina à disposição de uma vitória a qualquer custo, mesmo que desrespeitando os dogmas que inspiraram a criação do PT e norteiam sua existência como agremiação partidária.

A verdade sobre esse filme que fez sucesso no finalzinho de 2002, é que o rompimento da aliança com o PSB e outros partidos considerados de esquerda, imposto pela verticalização, e interesses personalistas das suas principais lideranças (Capiberibe e Dalva, em primeiro plano), obrigou o PT a inclinar-se para a direita, a retocar a imagem, o que aprofundou ainda mais tais divergências. Foi assim que dona Dalva, virtualmente classificada para o segundo turno, resolveu destruir Capiberibe, tomando a decisão de abandonar Lourival Freitas no meio da disputa para o senado, de preterir ainda Sebastião Rocha, e, assim, tentar eleger Gilvam com a contribuição de Lula, que trouxe (quem diria!) Sarney para vingar-se de Fernando Henrique no palanque do PT.

Para complicar de vez a vida do Partido dos Trabalhadores e o seu horroroso desempenho em oito meses, emergiram com a força de um vendaval as denúncias do Ministério Público Federal envolvendo figuras exponenciais do governo, entre as quais Dalva Figueiredo. Isso lembra que a situação de Antônio Nogueira, até agora indefinida, põe em xeque a carta de princípios do PT; outro correligionário dele, Hélio Esteves, também eleito deputado federal, por muito pouco não foi cassado. Um eleitor me pergunta se o PT de Dalva e Edivan Barros, de Antônio Elias e Antonino Lobato é o mesmo de Lula e Mercadante, de José Genuíno e Eduardo Suplicy? Ao eleitor curioso, prefiro lembrar que Nogueira segue ileso diante das graves denúncias que marcaram sua eleição e Dalva foi premiada com cargo de relevância no Diretório Nacional; poderá ser indicada para um cargo federal no Amapá e ainda, bem à vontade, negocia a participação de alguns quadros do PT na Prefeitura de Macapá.

Independente do que vai acontecer, a estrela Dalva não brilhou nos céus do Amapá e o PT também. E o que houve aqui, a experiência desastrosa dos petistas no governo, não pode ser minimizado. O eleitor e o Partido dos Trabalhadores precisam refletir sobre o que aconteceu: aquele para encaminhar melhor o seu voto nas eleições municipais do ano que vem (uma dificuldade a mais para a reeleição do prefeito João Henrique), e o Partido dos Trabalhadores para aprender a grande e preciosa lição que o poder nos oferece quando não sabemos o que fazer com ele. A parte as divisões provocadas pelas questões internas, o partido possui excelentes quadros e poderia ter feito uma boa administração. Pena que tenha prevalecido a sede ao pote, o descaso com a imagem e a história do partido.

E o que resta ao PT? Acho que tomar uma atitude diante dos fatos. Infelizmente constato não ter sido bem a posição adotada pelo Presidente do Diretório Nacional, José Genuíno, que veio à Macapá para a festa de filiação de João Henrique e que, instado, colocou dificuldade para discutir a situação interna do partido, minimizando também a necessidade da apuração das denúncias sobre o governo Dalva Figueiredo; a muito custo as lideranças petistas que oferecem e querem a apuração das denúncias conseguiram convencer Genuíno a enxergar os problemas que prejudicam a imagem do PT no Amapá, lideranças que há muitos anos, justiça seja feita, defendem o programa e levantam com honradez a bandeira do Partido dos Trabalhadores.

Dizia, portanto, que em primeiro lugar os petistas precisam reconhecer que fizeram um governo desastroso; depois exigir que sua comissão de ética abra processo, responsabilizando os culpados, impedindo que estes ocupem cargos federais no Amapá. Na verdade, tem uma minoria petista que merece respeito e que exige a apuração das irregularidades e a responsabilização dos filiados envolvidos, o que não amenizaria de todo os estragos que estão ai, mas seria um bom recomeço. Enquanto nada acontece, tristemente prevalecem a imagem arranhada do partido e a tese indigesta de que o PT é bom de crítica, mas ruim de governo.