Sem medo de enfrentar a violência

por Carlos Azevedo

O assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, escancara o Brasil. Ao mesmo tempo, mostra que somos capazes de produzir um homem público, intelectual, professor, político, parlamentar e executivo, tão completo quanto Celso, e grupos criminosos de mentalidade semelhante à dos nazistas em sua brutalidade. Um jovem a caminho de se tornar estadista, com capacidade para dirigir o país. E uma gangue herdeira da mais abjeta tradição de violência acumulada nos porões de nossos 402 anos de História sangrenta.

Esse trauma escancara muito mais. Conduz-nos aos limites da tolerância.

Nós, cidadãos, já não temos mais de contemporizar com esse governo e sua pantomima neoliberal. Em primeiro lugar, poupe-nos o presidente do vexame de suas tentativas ridículas de escapar às responsabilidades. A culpa não é do celular pré-pago! Nem há falta de leis. Nem adianta "unificar" ou "integrar" as polícias corruptas porque, como todos sabemos, a corrupção vem de cima, vem dos "próceres" da Nação que a praticam e dos que a toleram e ajudam a encobri-la por conveniências políticas.

Não há surpresa com os níveis de "Colômbia" a que estamos chegando.Desde o momento em que se renunciou a demolir a herança da ditadura militar,e que sobre seus escombros "honoráveis" como FHC, Mário Covas e outros, contemporizaram com a lama para atingir o poder, e promoveram a instalação do Consenso de Washington, da república de "quem puder mais chora menos", de "cada um por si". Desde Sarney, desde Collor, a lei da selva estava instalada. Não podia dar outra.

Na esteira do "mercado" (sinônimo de capital financeiro internacional e seus sócios nacionais, selvagem, espoliador de tudo que produzimos); da privatização, esse esbulho dos ativos econômicos da Nação; da "cultura de massas", essa excrescência alienante e embrutecedora que verte em jorro da televisão e dos outros meios de comunicação, o que poderia vir? O abandono, o desemprego, a fome de milhões, o nomadismo dos desterrados e desamparados que vagam a esmo pelo país, a doença e o analfabetismo funcional que há muito tempo passa no vestibular. E no meio disso, o que esperar, senão a violência mais brutal, a irmã gêmea da corrupção e da impunidade?

Discutem se o massacre de Celso Daniel (brutalmente torturado antes de ser fuzilado com 9 tiros) foi ou não crime político. A gangue assassina pode ter ou não motivações políticas. Mas esse crime é claramente político em termos mais abrangentes. Ele é a condenação do regime político que nos impuseram.

É a prova de que os sete anos de FHC são um fracasso completo.Colocou o Brasil de joelhos diante do capital financeiro internacional. Aprofundou as desigualdades favorecendo desbragadamente os poderosos e escorchando, humilhando e reprimindo os trabalhadores e as pessoas simples. Contribuiu para o esfacelamento do sistema político do país ao governar corrompendo e subornando, comprando votos e oferecendo privilégios e facilidades em troca de apoio. Como, por exemplo, fazer de tudo para desmantelar o movimento sindical e restringir os direitos dos trabalhadores para favorecer banqueiros e empresários.

O atentado contra a Nação e o povo que foi o assassinato de Celso Daniel escancara totalmente nossos olhos. Ele nos coloca um imperativo moral: abandonar o conformismo e o imobilismo e encarar seriamente a tarefa de mudar nosso país. Nós podemos. Sabemos que podemos. Olhemos para nossos irmãos argentinos que simplesmente não aceitam mais ser governados pelos mesmos charlatões que roubaram a riqueza e as esperanças da Nação.
Eles estão lutando nas ruas.

Com a morte de Celso Daniel querem nos meter medo, querem dizer que vão impedir que um governo popular chegue ao poder. Em homenagem a seu sacrifício cabe a cada um de nós dizer não. Nós vamos é avançar, nas urnas e nas ruas.
Sem medo.

Carlos Azevedo é jornalista.