Se não me falha a memória

Corria o mês de dezembro de 1999 e desembarquei em Macapá à convite da deputada federal Fátima Pelaes. Durante os dias de permanência na cidade, pude auscultar com muita pertinência os sons dos ventos amazônicos que sopravam em direção ao Palácio Lourival Banha. Existiam muitos pré - candidatos para disputar a cadeira de prefeito da capital do Amapá.

Nas solenidades de inauguração de redes de extensão de energia elétrica na periferia de Macapá, e mesmo no interior, observei com muita atenção os movimentos dos prováveis candidatos do então Governador João Capiberibe a prefeitura de Macapá. No regresso de uma destas solenidades, o governador me convidou para uma conversa na varanda da residência oficial.

A brisa do Rio Amazonas testemunhou a longa conversa, que varou a noite e adentrou a madrugada, tanto que perdi o vôo das primeiras horas da manhã. Durante o papo, o governador solicitou minha opinião sobre o João Henrique. Não me fiz de rogado. Disse-lhe que o João sempre deixou em mim uma boa impressão, não sem antes afirmar que já o conhecia de outros visitas ao Amapá. Era ao meu ver um quadro competente e um militante exemplar, mas se ele estava pensando em lançá-lo candidato à prefeito tinha lá minhas dúvidas. Achava a Fátima Pelaes uma opção melhor, pois já havia sido candidata e era uma excelente parlamentar federal, associado ao fato de estar participando do governo desde o início do segundo mandato de governador.

Já o João, apesar dos atributos, nunca havia sido testado, talvez não tivesse o dom da oratória e demandaria um grande esforço para torná-lo conhecido do eleitor. Além disso, lembro-me bem, narrei o caso do João Durval, eleito governador da Bahia, por ACM, mas que com dois anos de mandato, por comprovadas influências externas e muita corda dada pela imprensa, preferiu demonstrar ao eleitorado que era independente e não uma peça de um grupo político que tinha um líder, um comandante.

Senti que o então governador ouviu com muita atenção, como é do seu feitio, mas não se convenceu. Neste momento, tive a sensação que a brisa do Amazonas confidenciou ao meu ouvido, “não adianta, o candidato do Capi é o João”. Foi e venceu com uma pequena margem, como havia previsto.

Hoje, pela manhã, como faço todos os dias, liguei o computador, conectei a Internet e naveguei pelos noticiários do Amapá. Lá estava o artigo do Camilo Capiberibe sobre os dilemas do João Henrique. Li com atenção e me reportei a dezembro de 1999, daí ter contato acima os detalhes da visita à época. Ao mesmo tempo, revi o filme do João Durval e tive a certeza, que o xará do Amapá está sendo utilizado pelos adversários do Capiberibe, pegando corda de “amigos” e de uma parte da imprensa, essa, a semelhança da maioria da mídia brasileira, alimentando versões que ajudam a vender seus produtos.

O caminho natural do João Henrique seria esperar a hora certa, mas como não é uma raposa política, é apenas um discípulo coberto de dúvidas, ele não antevê que ao permitir ser usado, ele pode fulminar a sua carreira política, que começou bem, mas que agora patina por influências, umas ingênuas, outras perversas. O melhor que João Henrique faz no momento, é se aconselhar com a, companheira socialista alagoana, prefeita reeleita Katia Born, que já lhe acenou com régua e compasso para que ele possa se reeleger prefeito de Macapá pelo PSB. 2006 João, é outra estória. João, lembre-se cada dia uma agonia, cada eleição é uma eleição.

Chico Bruno