Soja no Amapá

O grão de origem chinesa trará vantagem para o Amapá? Esta questão aporta como matéria prioritária nas pautas dos meios de comunicação, com forte desdobramento na sociedade amapaense. Este debate vai além das preocupações com o crescimento econômico. Discute-se o modelo de desenvolvimento para o Amapá.

A soja é uma cultura importante para qualquer lugar do mundo, pois com o avanço tecnológico a soja passou a representar o elo de uma cadeia produtiva responsável pelos insumos de proteínas que alimentam o homem. Da soja se produz a ração animal, o óleo e muitos outros produtos de grande importância na dieta alimentar.

Entretanto, qualquer tomada de decisão sobre a soja, a siderurgia ou quaisquer outros projetos que aportem no Amapá sobre a lógica do capitalismo deve ser questionado e contabilizado, pois até então a história tem demonstrado que os custos para a sociedade são maiores que os benefícios. Questões como: escala territorial, verticalização da produção, uso de áreas degradadas, inclusão social e diminuição das desigualdades, entre outras, necessitam ser analisadas.

Quanto à escala territorial, não temos áreas suficientes para grandes plantios. A alegação de que existe no Amapá cerca de um milhão de hectares de cerrado disponível para plantio é irreal, pois além dos 110.000 hectares de eucalipto da AMCEL, parte do cerrado apresenta características físicas intransponíveis para o plantio de grãos, como: avançado processo de laterização, solos rasos, relevo ondulado, além da reserva legal exigida por lei. Desse total, talvez restem entre 100 a 200 mil hectares para cultivo de grãos, que é uma boa área para o Amapá.

A soja a ser produzida não pode deixar o Amapá sem agregação de valor. Aí a coisa pega! Cadê as políticas para o setor produtivo? A Internacional Paper, a dona da AMCEL, fechou o ano de 2004 com um faturamento no Brasil de US$ 592 milhões. No Amapá, a Internacional Paper gera poucos empregos e não tem participação na vida social do Estado. Este é o mais perverso braço do capitalismo, pois todas as decisões sobre agregação de valor a matéria-prima estão relacionadas ao mercado. Neste contexto, a verticalização da produção da soja no Amapá é inviável pelas regras do mercado.

As áreas degradadas no Amapá são praticamente inexistentes. Existe pequenas faixas de terras degradadas na região do Pacuí e em Mazagão. Neste ponto, o Zoneamento Ecológico-Econômico do Amapá tem muito a contribuir, basta deixar de tratar o Zoneamento como mero produtor de mapas coloridos. A equipe do zoneamento do Amapá é uma das mais competentes do País naquilo que faz.

A soja não é uma cultura excludente se for viabilizada através de pequenas propriedades. Experiências no sul do Brasil demonstram que em cooperativas de pequenos produtores de soja a riqueza gerada é compartilhada entre todos. É melhor ter 200 produtores de soja com propriedades de 50 hectares/cada do que ter um único produtor controlando 10 mil hectares. Gandhi definia riqueza citando que “existem bens em quantidade suficiente no mais pobre vilarejo indiano para satisfazer as necessidades de todos, mas não suficientemente em toda Índia para satisfazer a ganância de cada um”.

São inúmeros os aspectos técnicos a serem analisados e quase todos com níveis diferenciados de incertezas. A única certeza que existe nesta discussão é que o desenvolvimento sustentável, autêntico, alternativo, durável (para todas as paixões) que se almeja para o Amapá pressupõe a existência de um Estado Forte.

Marco Antonio Chagas, mestre em desenvolvimento sustentável.