De Garanhuns ao Iratapuru, eu sou Luiz Inácio Lula da Silva!

Aroldo Pedrosa*

Em fins dos anos 80, a Rede Globo apresentou, no horário nobre, durante quase nove meses, a telenovela "Vale Tudo", considerada até hoje a campeã de audiência no gênero em todo o Brasil. O enredo mostrava a decadência da vida brasileira atingida por ondas de assaltos, seqüestros, assassinatos, miséria, fome, inflação e, como protagonista e causadora de todos esses males, a velha, famigerada e corrosiva corrupção política.

A trama e as imagens da telenovela, de tão fortes, apesar do passar desses anos, tornaram-se inesquecíveis. Sobretudo a cena final, onde o principal personagem, interpretado magistralmente pelo ator Reginaldo Farias, fugindo do País, com milhões de dólares, aparecia na janela do avião bimotor, cinicamente dando uma "banana" à terra de Pindorama. Era a consagração do crime, se saindo impunemente vencedor no maior sucesso global de todos os tempos.

Aquele Brasil, dos brasileiros e brasileiras, tinha o maranhense José Sarney à frente, que, na condição de vice-presidente eleito por um colégio eleitoral em 1985, com a morte de Tancredo Neves à véspera da posse, acidentalmente chegou ao posto de presidente da República.

Na abertura de "Vale Tudo", a voz de Gal Costa foi ouvida muitas vezes cantando a dura e afiada poesia: "Não me convidaram / pra essa festa pobre / que os homens armaram / pra me convencer. / A pagar sem ver / toda essa droga / que já vem malhada / antes de eu nascer". A canção, chamada de "Brasil", feita pelo jovem e talentoso compositor carioca Cazuza, contaminado pelo vírus da Aids, manifestava a sua indignação com a realidade brasileira da época.

A balada de Cazuza tornou-se um hit nacional, mas, no auge da carreira, morria o poeta vítima do vírus HIV, depois da revista VEJA ter exibido em reportagem sensacionalista de capa as feridas do artista que resolvera assumir publicamente a sua condição de homossexual.

No Brasil desse tempo, após um recesso imposto por quase 25 anos de ditadura, acontecia a primeira eleição presidencial, fazendo renascer assim a esperança de que, nas urnas, com a soma de todos os tristes querendo juntos, poderia se pôr um fim à tristeza.

E foram para o segundo turno Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) e Fernando Collor de Melo, do Partido da Renovação Nacional (PRN). "O caçador de marajás" - como era chamado o candidato vindo das Alagoas - recebeu o apoio da direita e as esquerdas se uniram em torno do candidato do PT. Junto com Chico Buarque, Djavan, Gil e Caetano, cantamos o "Lula-lá". Crescia a esperança.

Mas, no último debate com os dois candidatos, promovido pela Rede Globo, o Jornal Nacional, na noite anterior à eleição, levou ao ar uma edição em que mostrava Collor de Melo como vencedor. E, como todos assistem à TV do Roberto Marinho, o País, até então em preto e branco, se "colloriu" e aí todo mundo sabe no que deu.

A trilha sonora do Brasil da aquarela vinha do campo e era de pouquíssima qualidade. Na famosa Casa da Dinda, entre cachoeiras e cascatas artificiais, duplas da música sertaneja se revezavam. À medida em que o mais alto escalão do governo se divertia (como os ministros Cabral e Zélia, dançando ao som de Besame Mucho), o dinheiro do povo nos bancos era confiscado.

Num País de 32 milhões de miseráveis, Collor, ao se travestir de demolidor, exibia uma imagem contrária a essa realidade. Quem não se lembra da frase "eu tenho aquilo roxo" que ele usou para enfatizar o "cabra macho" que dizia ser?

Assessorado por PC Farias (o tesoureiro da campanha) e cada vez mais mergulhado num mar de lama da corrupção, de caçador de marajás, o presidente, que não caçara ninguém, passou à caça. Até que um dia, vestindo luto, a rebeldia de nossa juventude pintou a cara e saiu às ruas para pedir o impeachment de Collor. Caiu o presidente corrupto e, com ele, de tão podre, toda a quadrilha.

O vice Itamar Franco assumiu o governo de transição. O presidente Nacional do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, nesse ínterim percorria, com a Caravana da Cidadania, o Brasil de ponta a ponta. Na disputa pela presidência, um episódio inusitado aconteceu envolvendo um ministro de Estado que, em defesa do candidato do governo, não teve o menor pudor em dizer que não tinha nenhum escrúpulo. O ministro sem escrúpulos caiu, é certo, mas, Fernando Henrique Cardoso, assim mesmo, era eleito o novo presidente do Brasil.

Na primeira entrevista coletiva falou que na noite anterior assistira ao Circuladô - vídeo comemorativo aos 50 anos de Caetano Veloso, dirigido por Walter Salles ("Central do Brasil"). Era o presidente intelectual falando à imprensa que gostava de MPB e era fã de Caetano. A citação deu o que falar e alguns jornalistas apressadinhos anunciaram que o criador da Tropicália seria o eventual ministro da cultura. Embora admitindo o voto em FHC, o compositor foi logo dizendo que não. Tom Jobim, entre outras celebridades, também disse que votara no criador do Plano Real. Chico Buarque não, preferiu declarar o seu apoio à Lula.

Mas o Brasil, mesmo com a estabilidade da moeda, continuava fora da ordem, como na letra da canção do artista baiano: "Alguma coisa está fora da ordem / fora da nova ordem mundial".

"Fora da Ordem", concebida no limiar da era Collor (1991), denunciava um Brasil real que era e ainda é desse jeito: "Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína / tudo é menino e menina no olho da rua / o asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua / nada continua". Com o passar dos anos, a poesia das ruínas do poeta-cantor parecia se contrapor à política do presidente que já tomara outro rumo. "E o cano da pistola que as crianças mordem / reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito mais bonita e muito mais intensa do que no cartão postal". Quer verdade tropical maior do que essa?

Em 1997 morria o irmão do Henfil. Fundador da campanha Ação da cidadania contra a miséria e pela vida, o humanista e hemofílico Betinho perde a vida no dia 9 de agosto, vítima do mesmo vírus que matou o poeta Cazuza - sendo este adquirido num banco de sangue do Brasil do descaso. Mesmo debilitado (foram 11 anos - a contaminação aconteceu em 1986), o humanista lutava incansavelmente, chamando a atenção para os 32 milhões de miseráveis que não têm o que comer no País. "Não posso ser feliz diante da miséria humana. O fim da miséria não é uma utopia", dizia Betinho, numa edição especial da revista VEJA, com o seu rosto estampado na capa feito todo em grãos e sementes. Herbert de Souza que amava Lula que ama Betinho!

O fim da miséria é possível sim, desde que haja vontade política para isso. Mas FHC não parecia ter essa vontade, a partir do momento em que põe a preço de bagatela o patrimônio público em leilão.

Era a era da privatização. Entre milhões de brasileiros, Lula foi a maior resistência e o mais implacável dos críticos.

Enquanto homens na capital federal exerciam os seus podres poderes, outros, todavia, cada vez mais pobres e levantados do chão, partiam em busca de um pedaço de terra para viver. "Reforma agrária, já!" - o que a legião de famintos mais queria. Chico Buarque, na ocasião, cantava: "Zanza daqui / zanza pra acolá / fim de feira, periferia afora / a cidade não mora mais em mim / Francisco, Serafim vamos embora".
E veio o conflito da PM com os sem-terras, em Eldorado de Carajás, no sul do Pará. Saldo da violência: 23 mortos e 50 feridos. Todos miseráveis. O Brasil, mais uma vez, era notícia no mundo. Almir Gabriel, do PSDB - o partido do presidente - governava o Pará na época. "Quando eu morrer / cansado de guerra / morro de bem com a minha terra", dizia a segunda estrofe da letra de Chico Buarque.

Com a aprovação no Congresso do Projeto de Lei à Reeleição, ainda no primeiro turno, em 1998, disputando com o candidato do PT, Fernando Henrique Cardoso ganha mais uma vez o direito de governar o Brasil por mais quatro anos. O Plano Real, por controlar a inflação e a subida do dólar, foi o trunfo que o levou à vitória. Entretanto, a recessão e o desemprego no País, por outro lado, caminhavam juntos e a galope.

Caetano, desta vez, não votou em FHC. Chico Buarque, muito menos. Sobre o compositor de "Paratodos", que continuava mais Lula do que nunca, FHC certa vez o desdenhou dizendo que "Chico já está ultrapassado". Falam as boas línguas que a resposta veio na metáfora de Injuriado: "Dinheiro não lhe emprestei / favores nunca lhe fiz / não alimentei o seu gênio ruim / você nada está me devendo / por isso, meu bem, não entendo / porque anda agora falando de mim". Por mais que Chico não tenha admitido, todo mundo acha que foi mesmo para o "presidente do nhém-nhém-nhém" a canção. Não podia ser mera coincidência.

O Brasil do segundo mandato de FHC prosseguia, oscilando entre o desastre e a glória. A quebradeira na economia do País vizinho nos remetia à unção dos enfermos. "E agora?" - perguntavam os mais leigos. "Agora, o que resta a fazer é tocar um tango argentino!" - brincavam os mais humorados e cultos. Não, Brasília estava longe de ser a capital da Argentina, assim como Maradona de ser o Pelé.

A seleção brasileira disputava nas eliminatórias uma vaga para ir à Copa do Mundo. Enquanto isso, dois medalhões da política nacional trocavam insultos no Senado Federal. Era a mais espetacular e sórdida guerra de dossiês entre Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Jader Barbalho (PMDB-PA). O que eles queriam com aquilo? Ora, provar quem era o político mais corrupto! E a nação estupefata assistia a tudo pela televisão. Até que um dia um fato novo surgiu: a suspeita de violação do painel de votação do Senado.

Na eleição que cassou, por falta de decoro parlamentar, o senador Luiz Estevão (PFL-DF), corria à bocas pequenas uma suposta relação de nomes que teriam votado contra a cassação. ACM comentou que a senadora Heloísa Helena, do PT de Alagoas, era um desses nomes. Indignada com a acusação leviana do senador, Heloísa exigiu a lista. E foi aí que o circo, perdão, o Senado começou a pegar fogo.

Como presidente daquela casa, Jader mandou apurar a denúncia. Realizado o trabalho de investigação, a comissão concluiu: o painel de votação fora violado e o ex-presidente, ACM, juntamente com o senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) estavam por trás da tramóia. Nunca o povo brasileiro viu tanta roupa suja, com etiqueta federal, sendo lavada na rua. Lula e os partidos de oposição pediam a cassação dos dois senadores. Uma comissão de ética fora instalada no Senado Federal. Arruda não suportou, e logo renunciou ao mandato. Mas o truculento e todo poderoso ACM preferiu ir a julgamento. Heloísa Helena, com o dedo em riste, dizia: "O senhor tem que apresentar a lista, pois eu não aceito ser refém da sua memória!". Caía a tarde e o Brasil assistia pela TV, ao vivo, a doce senadora da floresta, Marina Silva (PT-AC), companheira de luta de Heloísa, chorar no plenário, comovida. O senador baiano, mais próximo da sentença de cassação, para não perder por oito anos os direitos políticos, renuncia enfim ao mandato. Meses depois, foi a vez de Jader Barbalho, com o peso das denúncias de enriquecimento ilícito de desvio de dinheiro público - casos da Sudam e Banpará.

Paralelamente a isso, os partidos de oposição se articulavam para aprovar a CPI da corrupção. Lula apoiava o movimento, FHC, que deveria dar o melhor exemplo, não. Ao contrário, se mobilizara para pulverizá-lo. Caetano Veloso, em entrevista à revista TRIP, disparou: "Acho uma coisa feia, nojenta, desagradável, que Fernando Henrique e equipe tenham aparecido naquela compra de parlamentares, impedindo que saísse a CPI da corrupção. Foi o que pareceu na imprensa, e nada desmente isso". FHC, apoplético, redigiu do próprio punho carta e mandou ao compositor - revelou, em seu programa, o humorista Jô Soares. Como trilha sonora do desenlace, Caetano devolvia feito cego violeiro repentista em fim de feira: "Circuladô de fulô / ao Deus ao demodará / que Deus te guie / porque eu não posso guiar..." - a letra, do poeta concretista Haroldo de Campos.

Na Coréia do Sul, em 29 de julho de 2002, o Brasil conquistava o título de pentacampeão de futebol do mundo. Esta talvez seja a maior glória brasileira desses últimos quatro anos.

No primeiro programa Brasil Decente-Lula Presidente, Gilberto Gil cantava: "A paz invadiu o meu coração / de repente me encheu de paz / como se o vento de um tufão / arrancasse os meus pés do chão". E finalizava com Caetano, cantando de Guilherme Arantes: "Amanhã, será um lindo dia, / da mais louca alegria / que se possa imaginar. / Amanhã, mesmo que uns não queiram / será de outros que esperam / ver o dia raiar".
O programa terminava com o candidato do PT agradecendo: "Muito obrigado, Gil! Muito obrigado, Caetano!".

Em Macapá, na II Conferência da Amazônia, realizada no período de 28 a 30 de novembro de 2001, Lula e o governador do Acre, Jorge Viana, vieram para abrir o evento. Na solenidade de abertura, o presidente de honra do PT falou: "A experiência de desenvolvimento sustentável do Amapá é alternativa para a Amazônia, que, por sua vez, pode ser a solução para parte dos problemas que atingem o País".

Acompanhado pelo então governador João Alberto Rodrigues Capiberibe, no dia seguinte, foi conhecer a Reserva do Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru. Lá, comeu dos biscoitos finos que os castanheiros fabricam e provou também do azeite - tipo exportação - da castanha-do-Brasil. À margem do rio, conversou com extrativistas e parteiras, e viu de perto o efeito da revolução que transformou a vida de pessoas tão simples.

O caboclo Eudimar Viana, no estande da Cooperativa Comaru, na última edição da Expo-Feira, mostrava orgulhoso a foto do pai ao lado de Luiz Inácio. "Ele tem o nosso jeito. Vai ver que é porque ele nasceu lá no sertão e passou por dificuldades que nem nós", ressaltou.

Lula é o único presidenciável que se pode dizer conhecedor das experiências dos povos da floresta. E hoje, mais do que nunca, sabe que para se construir um Brasil decente, é preciso mesmo andar por esse País e mergulhar fundo em suas entranhas. O candidato do PT está preparado, sim, para ser o presidente do Brasil. São exatos 13 anos até aqui. "Lula representa a chance de mudar a política econômica que nos conduziu ao desastre", escreveu, no editorial de Carta Capital, recentemente o jornalista Mino Carta.

O Brasil real de hoje não está no enredo da nova novela das oito, como em 1989 - por mais que a "esperança" explícita no título esteja e seja sempre a última que morre. Os problemas do Brasil continuam e, pelo que se vê, não mudaram muito. Basta ver a insegurança e a disseminação do pânico, provocada por Fernandinho Beira-Mar e Elias Maluco - só para citar um exemplo.

No primeiro turno das eleições, em 6 de outubro, fomos às urnas confirmar a preferência no melhor candidato. Por muito pouco não aconteceu a vitória, adiada para o próximo dia 27 - a mais importante data para a vida e o destino de 170 milhões de brasileiros.

Sei que sou um, mas não sou o único, que, com essa arma poderosíssima que é o voto, vai fazer de vez uma revolução de verdade. Afinal, de Garanhuns - no sertão pernambucano - ao Iratapuru, eu sou Luiz Inácio Lula da Silva!


* compositor e assessor de comunicação do Governo do Amapá