Amores subterrâneos de uma cidade morena
Aos 247 fevereiros de Macapá

Texto: Edgar Rodrigues

Em cada esquina, um rastro de história. Em cada praça um pouco das lembranças que ficaram nas reminiscências. A praça Veiga Cabral, por exemplo, era São Sebastião, e mesmo não tendo evento algum em janeiro, era o logradouro presença viva com seu pelourinho, colocado ao lado da magistral catedral de São José que, por ironia da história, teve nas argamassas de suas pedras as imposições da mão escrava, dando forma ao templo religioso.

Os açorianos chegaram aqui nos idos de 1750, como primeiros colonizadores. Eles se fixaram em um local que hoje já não mais pertence à cidade: Igarapé da Fortaleza. Lá idealizaram Macapá e plantaram as primeiras sementes de colonização, tendo como testemunha os escombros do velho Forte de Cumaú.

A cidade experimentou os elementos iniciais de uma cidade morena, presenciando a passagem dos lendários tucujus, que vieram do sul do Pará, fixando residência às proximidades da Lagoa dos Índios, onde viveram por várias décadas.

A cidade também viu passar o grande Orellana à margem do rio Amazonas, e passou a se chamar Nueva Andaluzia, em homenagem ao navegador e sua cidade natal.

No início do século, deu guarida aos primeiros atritos políticos, após ter vivenciado os conflitos cabanos. A Revolução Macapaense, onde debutaram fanáticos como Aureliano de Moura, e os conflitos isolados envolvendo Teodoro Mendes e Manuel Buarque, foram alguns movimentos que quebraram o silêncio da pacata vila.

Na contemporaneidade a cidade virou Cinderela, através da lavra da Aracy Mont’Alverne. O Igarapé das Mulheres, local onde as senhoras e as moças de boa família iam lavar a roupa, passou a ter também outras lavagens. Ali as notícias corriam, e todos ficavam sabendo das novidades.

Os cavalheiros dispunham do Clip Bar, instalado em frente ao Mercado Central onde, após um gole de café e outro de aguardente, contemporaneizavam os fatos, e toda cidade se contagiava das novidades.

Surge o Macapá Hotel, local cativo da mocidade que ali se encontrava nos finais de semana.

Os amores subterrâneos passavam a emergir na superficialidade das pedras do quebra-mar. Titio Alcy Araújo já tinha trocado de cais, adotando Macapá como porto seguro.

s ondas do mar envolto contagiavam e tamborilavam no movimento musical de Walquíria Lima, mestre Oscar e mestre Pontinha, que musicalizavam as mensagens poéticas do saudoso Waldemiro Gomes com suas sereias e botos a enfeitar o imaginário popular do caboclo.

O “Jornal Falado E-2”, da Rádio Difusora, passou a ser a âncora dos noticiários locais, onde Pedro Silveira, Edvar Mota, José Machado, Amazonas Tapajós e Carlos Garibaldi dividiam audiência.

Quem não teve oportunidade de se deliciar do gostoso tacacá de dona Bebé e dona Lucy? Qual foi a família macapaense que não teve algum membro nascido das mãos de mãe Luzia e Vó Guardiana?

Nas doenças, o velho Sacaca dividia um pouco o seu reinado de Momo para fabricar suas famosas garrafadas.

As piadas de Genésio ainda têm sabor brejeiro, assim como o amor nativista do Tenente Pessoa. Mestre José Benevides terminou seu ciclo terrestre em Fortaleza, no Ceará, e por muito tempo lembrava dos grandes momentos em que lecionava latim para padres velhos, e língua portuguesa para padres novos, do Pime.

Dom José Maritano, mesmo lá no céu, ainda divide preferência com dom Aristides Piróvano, na condução do rebanho. O cais da doca da Fortaleza deu passagem ao quebra-mar, onde até hoje os passeios vespertinos e noturnos acontecem.

Tudo isso agora é saudade submersa, momentos que apenas lembramos, mas que são sempre evidenciados, e transformados pela crônica cabocla. São amores que vão e vêm. São momentos subterrâneos que circundam a mente afetiva e saudosa dos que ficam, embalados pelo sentimento contagiante de uma cidade morena, que guarda mais de duzentos fevereiros de amor e dor, na expectativa de melhores dias, em ondas esotéricas e zonas francas, com sua população cultivando um franco e merecido desejo de ser cada vez mais feliz.