Educação para sustentabilidade

Valéria Barros*
Jornal de Brasília

Quando refletimos sobre como permear uma vida melhor, no sentido mais amplo, enxergamos um mundo que se transforma por fatores alheios ao nosso alcance, mas também pelos frutos que semeamos desde a infância. Com um olhar atento sobre as mudanças que ocorrem pela globalização, percebemos existir muitas vezes um abismo entre o que as instituições se propõem e o que realmente fazem. Se fizermos uma comparação entre os padrões organizacionais que a natureza adota e os adotados pelas instituições, concluimos que não encontramos distinção entre cooperação e competição na natureza. Tudo nela compete e coopera, num equilíbrio harmônico. A natureza nunca tenta criar o resultado final. Cria condições pelas quais o resultado pode se concretizar. Enquanto isso, várias instituições passam por um processo de desarmonia corporativa, incapazes de implementar o propósito ou missão para a qual foram criadas. Em vez disso, continuam a consumir recursos, a se expandir, a ter domínio de poder e, muitas vezes, a contribuir para a destruição do meio ambiente.

Nesse sentido, nos reportamos à educação, condição primária para o desenvolvimento sustentável do País e para acabar com a miséria e elevar a auto-estima do povo. Quando falamos em sustentabilidade, lembramos da nossa responsabilidade de deixar para nossos filhos e netos um mundo dotado de tantas oportunidades quanto havia no mundo que herdamos.

Acreditamos que o processo de educação sustentável nas escolas deve envolver uma pedagogia que busque estimular a prática de currículos que integrem os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável. A escola deverá ofertar a todos, especialmente a jovens, oportunidades para que se tornem o sujeito da aprendizagem, ou seja, que participem das decisões relativas ao projeto da escola. Para jovens e adultos trabalhadores, o estímulo do "aprender pelo exemplo" pode ser incentivado pelo relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. A ação de integrar o meio ambiente à proposta de um sistema de educação para a vida sustentável já é praticada em escolas de 1º e 2º graus dos EUA e Europa. A partir da alfabetização ecológica, cujo centro de aprendizagem é uma experiência de aprendizado no mundo real (plantar uma horta, restaurar um mangue, explorar uma terra) que supera nossa separação em relação à natureza, cria-se um currículo no qual os alunos aprendem os fatos fundamentais da vida, baseado nos princípios de organização que os ecossistemas desenvolveram para a sustentabilidade: redes, ciclos, energia solar, alianças (parcerias), diversidade e equilíbrio dinâmico. Segundo Fritjof Capra, físico e teórico de sistemas, esses princípios têm uma relação direta com nossa saúde e bem-estar e dizem respeito a aplicar nossos conhecimentos ecológicos a uma reformulação fundamental de nossas tecnologias e instituições sociais, de modo a transpor o abismo que separa as criações humanas dos sistemas sustentáveis da natureza. Acreditamos que temas como educação ambiental, educação moral e cívica, educação popular, ética, direitos humanos e responsabilidade social farão diferença nos currículos das instituições que buscam desenvolver a educação para a sustentabilidade. O professor, principal agente empreendedor desse processo, terá grandes desafios pela frente: estimular processos de discussão democrática, investir na sua formação continuada, estimular o pensamento crítico e a autonomia intelectual do aluno e, mais que nunca, participar ativamente dos movimentos de mudança induzidos pelo ambiente interno e externo à escola.

*Valéria Barros é administradora de empresas e consultora em Educação
SEBRAE Nacional.