Talento-fobia

“Se fulano é bom, melhor mantê-lo de fora”. Afinal, ninguém quer perder seu “direito adquirido” de beneficiar-se da estupidez alheia.


O mundo se modernizou e uma nova faceta do preconceito humano se manifesta com uma assustadora freqüência. A incompreensível “talento-fobia”. Mal que acomete os pouco inteligentes - para não dizer medíocres - detentores do “poder de contratar”.

Grupinho este que incluí de empresários a políticos, de governos a multinacionais. Embora, obviamente se mostre de forma epidêmica na administração pública - talvez porque haja uma relação genética entre a mediocridade e certas nomeações, afinal a família tem sempre prioridade... “é sangue do meu sangue”. Entenda-se que esta crítica é apenas aos homens e mulheres de pouca visão, não se estendendo a você, caro leitor informado e imune a este mal.

É comum para o jovem amapaense, tal qual ao jovem dos grandes centros brasileiros, ao sair das desconfortáveis carteiras acadêmicas - ou ainda sobre elas -, ver-se empurrado para um mercado de trabalho extremamente competitivo e avesso à concorrência. Os “headhunters tucujús” mostram-se bastante fiéis à denominação do termo inglês e procuram por talentos com uma voracidade espantosa. Curiosamente, esta caçada se dá de uma maneira um tanto quanto inusitada, pois “se fulano é bom, melhor mantê-lo fora da turma”. Afinal, ninguém quer perder seu “direito adquirido” de beneficiar-se da estupidez e/ou falta de competência alheia.

No meio jurídico, há pouca diferença. Escritórios de renome acabam por monopolizar as “boas causas”, dando-se ao luxo de dispensar aquelas cujos ganhos financeiros não sejam assim tão recompensadores. É óbvio que esta é uma postura que não pode ser condenada, afinal o mercado está aí para ser competitivo e cobra mais quem pode mais. No entanto, este “mercado jurídico”, num espaço diminuto como o amapaense é repleto de trocas de favores... o velho, “uma mão lava a outra” que, “sem querer” promove a infelicidade geral dos recém-formados, impera em nosso meio. Certas mãos são mais fortes que outras e podem apertar com mais vigor quando necessário ou mesmo abrir-se e afagar com ternura a mão amiga. Neste contexto de “ajuda-me que te ajudarei”, o sonho de alçar vôo rumo ao sucesso acaba tendo seu fim selado antes do decolar. Se quem tem boca vai a Roma, em meio à mediocridade, é melhor não utiliza-la em demasia, pois corre-se o risco de não chegar a lugar algum.

Alexander Leite é acadêmico de Direito do CEAP ([email protected])