Territórios negros

Por Ivan Belém
Fonte: Diário de Cuiabá

"A carne mais barata do mercado é a carne negra que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico e vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos". (Marcelo Yuka)

Os terreiros religiosos e os quilombos são dois importantes territórios da comunidade negra neste país. Temos motivos de sobra para orgulharmo-nos deles. Assim como temos o dever de lutar pela sua integridade. Os terreiros, além de guardar o sagrado, representam inestimável contribuição à cultura nacional, imprimindo sua marca na música, na dança, na língua, na gastronomia. E ainda disponibilizaram seus deuses como uma das poucas armas para o enfrentamento da perversidade do regime escravocrata. Os quilombos também representaram uma outra arma. Espécie de sociedade alternativa, refúgio de negros descontentes, centenas deles espalharam-se por todo o Brasil, prova inequívoca de que não nos curvamos diante de nossos algozes.
Assim, terreiros e quilombos são símbolos de nossas lutas contra as desigualdades. Somos um povo guerreiro - ensinam-nos nossos antepassados.

Decorridos quase 115 anos da abolição, ainda sentimos na pele os efeitos da escravidão. Pesquisas mostram os números da injustiça: o Brasil tem 53 milhões de pessoas em estado de pobreza. Destes, 63% são negros. 62,6% dos afro-brasileiros empobrecidos possuem menos de 03 anos de escolaridade. 97% das vagas nas universidades são ocupadas por brancos. O desemprego é 50% maior entre os descendentes de africanos. Seus salários são, em geral, 50% mais baixos que os dos brancos.

Como se isso não bastasse, ainda há uma guerra santa nas TVs e ela vem se expandindo. Fanáticos jogam sal nos sítios religiosos afro-brasileiros e fazem piadinhas preconceituosas contra seus praticantes. Com os remanescentes dos quilombos não tem sido diferente. Vejamos o caso ocorrido recentemente no Quilombo Mata Cavalo, município de Nossa Senhora do Livramento, distante cerca de 40 km de Cuiabá, quando um enorme efetivo policial despejou trinta famílias das terras onde nasceram e viveram. Foi revoltante ver nos jornais fotos de um quilombola indefeso, cabisbaixo, algemado, cercado de policiais. Disseram que foi por "desacato a autoridade", velho argumento para justificar a violência contra uma etnia.

Aquela comunidade vem passando há muitos anos por momentos difíceis na tentativa de fazer valer seus direitos constitucionais. Vivem acuados e humilhados pelos fazendeiros, jagunços e policiais, ambos fortemente armados, representando papéis que no passado pertenceram a senhores de engenho, capitães-do-mato e mercenários. É o mesmo drama vivido pelos seus antepassados escravos. Os tempos são outros? Mudou alguma coisa?

Diante disso tudo, o Grupo de União e Consciência Negra (Grucon) de Cuiabá vem a público protestar veementemente e reafirmar o seu propósito de continuar lutando pelos direitos do povo afro-brasileiro. Rechaçamos essa cota de humilhação e violência que nos tem sido reservada em quase 500 anos de história. A cota de 40% de vagas que reivindicamos nas universidades é apenas uma parte dos nossos direitos, expressos nas políticas afirmativas.

Continuaremos a brigar pela inclusão de negros e negras nos espaços e setores onde sempre nos negaram acesso. Queiram ou não. Entendemos que as reparações (educacionais, culturais, econômicas e morais) são reivindicações legítimas. Portanto, que o país nos pague essa dívida histórica. Urgentemente!

Ivan Belém é historiador e coordenador do Grucon em Cuiabá.