GETÚLIO, BRIZOLA E O TRABALHISMO

Renivaldo Costa - jornalista

Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. (Rio de Janeiro, 23/8/54 - Getúlio Vargas)

Quero começar este artigo contando uma história de Vargas que aprendi com o jornalista Sebastião Nery.
Getúlio Vargas tinha oito anos, já estava lá em São Borja semeando espertezas. Num dia de conversa fiada, o pai quer saber o que ele já estava pensando da vida:
- O que é que você quer ser quando crescer?
- Militar.
- Por que militar? Meu filho, você sabe que o militar se arrisca muito?
Você sabe que o militar está sempre exposto a ser morto pelo inimigo?
- Então, eu quero ser o inimigo.

Seguramente o Brasil não mais produzirá políticos como Getúlio Vargas. Ele foi um homem para seu tempo mas cujos exemplos de ação política irão perpetuar ainda por muitos anos. Hoje faz 50 anos desde sua morte. Por isso, além de mim, com toda certeza, muitos outros escreverão sobre o assunto, lançando olhares biográficos e até ufanistas sobre o legado de Vargas. Prefiro, no entanto, lembrar um pouco do legado deixado por ele.
Voltemos 40 anos... O Brasil se desestruturou totalmente com a queda de Jango em 1964. O crescimento do trabalhismo, ponto de equilíbrio entre o trabalho e o capital, foi banido à força de baioneta. Um novo (?) Brasil se formava. Os trabalhistas de verdade foram colocados no ostracismo do exílio, muitos morreram antes de retornarem ao convívio de seus conterrâneos. Os que conseguiram retornar foram colocados sempre muito distantes do poder, pois as forças que derrubaram Jango e que tem seu endereço na Casa Branca continuam fortes e atuantes, apenas mudaram a estratégia.

Foi em um dia 13 - março de 1964 - que o trabalhismo ousou mostrar toda a sua força na Central do Brasil, quando milhares de trabalhadores pediam ao presidente da República que desencadeasse as grandes reformas que mudariam a cara do Brasil, o Presidente disse sim! Aquele 13 de março foi o fim de um momento de esperança e o início de um totalitarismo que massacrou o Brasil por muitos anos. Os deputados federais e estaduais, os senadores, os governadores, os prefeitos e os vereadores de todo o país, que não estavam de acordo com a Junta de Governo, eram cassados, presos, exilados e mortos.

Em um outro 13 - dezembro de 1968, um Ato Institucional, de número 5, terminou por enterrar qualquer resquício de democracia. O governo militar necessitava de "governabilidade".

Controlam-se os governos através de uma única palavra: "governabilidade".
Em nome desta palavra, todos têm se dobrado ao capital externo (e interno) e aos governos do Primeiro Mundo. Não importa quantos "Jangos" terão que ser exilados ou eliminados. Parece que fora deste sistema imposto pelo neoliberalismo não há nada, parece que temos que ser dominados para sobreviver parece, ainda, que temos que ter fome para zerar as contas públicas (será a tal "fome zero?") e fazer caixa para pagar a dívida externa.

A fome antitrabalhista não pára aí, vai mais longe, estica seus tentáculos até as leis trabalhistas de Vargas, não para melhorá-las, mas para equilibrar as contas públicas, acertar a balança comercial, reduzir as despesas das grandes empresas no item "custo social", amarrar o "trabalho ao capital" e deixar o "capital" totalmente livre.

Dos velhos bons tempos em que o trabalhismo deixava soprarem os ventos da democracia e que a coerência político-ideológica era uma verdade e não uma bravata e que os líderes tinham palavra e a honravam mesmo com a ameaça de perderem o poder, ainda está mais vivo do que nunca, mais coerente do que quaisquer outros na figura de Leonel Brizola, a quem sempre demos razão, mas seus adversários somente se dão conta disto depois e vão batendo no peito, um a um e dizendo: "Brizola tinha razão"! nós acrescentamos:
"Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini e João Goulart, para citar apenas as maiores expressões trabalhistas, também tinham razão. A tal de governabilidade não os fez ceder de seus ideais, ideais trabalhistas.
Getúlio, Jango e Brizola jamais dobraram a espinha. Com a morte de Brizola abre-se um novo ciclo de uma mesma História, nossa história.
A voz de Leonel Brizola somente será ouvida por força das gravações, mas a sua presença em nossas mentes irá multiplicar sua voz e, através dos que aprenderam a entendê-lo, esta voz se multiplicará por mil, pois Brizola não passará a ser história, continuará a fazer história nesta construção permanente de uma nação "que não será escrava de ninguém"...