TUMUCUMAQUE: DE FHC A ÁFRICA DO SUL - O PARQUE DAS PROMESSAS


Há pouco mais de um ano eu escrevi uma carta a FHC mostrando a indignação que sentia pela forma com que a União imponha sua ditadura constitucional ao jovem estado do Amapá. Sofríamos naquele fatídico dia 22 de agosto de 2002, com a criação do Parque Nacional do Tumucumaque, o maior e mais escabroso estupro federativo já praticado por um presidente da República do Brasil.

Muitos silenciaram.... O povo não deu importância. E, assim como disse o jornalista Carlos Bezerra, tornara-me um João Batista pregando no deserto. Tive um irmão demitido de um importante cargo federal e o desprezo de meu partido com a minha candidatura - só o Amapá não foi visitado pelo candidato Serra.

Se o filósofo Goethe tivesse conhecido a modernidade teria dito sua célebre frase de forma que ela pudesse se atualizar: “por onde passa o pensamento, 50 anos mais tarde passaram os canhões”. Pois é, graças ao poder da comunicação moderna, um ano após a solitária carta a FHC, a Assembléia Legislativa do Amapá resolveu atuar na sua esfera e também fazer o papel da ausente e tranqüila Bancada Federal. Estudantes da rede pública e de várias faculdades e principalmente a comunidade campesina passaram a questionar e a cobrar as tais promessas de FHC, feitas sob o olhar atendo e ingênuo da governadora Dalva Figueiredo.

Há cinco séculos muitos negros eram preados e escravizados e transportados em porões de navios sem saber em que terra encontraria o seu destino. Após meio milênio uma sina nos atinge... não são os filhos da África que estão chegando em nossa terra mas sim nossa terra (3,8 milhões de hectares) que está sendo desembarcada como uma prenda a ser leiloada ou saciada num banquete de ONGs dos países ricos, na cidade de Durban.

Somos a capital ambiental do planeta. Somos todos os superlativos dos conceitos modernos do ambientalismo. Mas somos a Meca da violência, dos suicídios entre jovens, do paradoxo entre um coletivo de forte respeito à natureza em detrimento a um total desrespeito à vida. Nunca tivemos uma guerra entre nós nos últimos cem anos, mas temos hoje uma capacidade de banalizarmos o valor da vida sendo totalmente insensíveis ao gesto da morte.

Ao contrário do destino dos filhos africanos que chegavam ao nosso território há trezentos anos, o Amapá estará desembarcando em Durban com seu jovem Governador, deputados estaduais e convidados. Ao contrário dos escravos que ficavam calados em praça pública aguardando o seu destino ser definido por outros... Esperamos ouvir a voz do Amapá e a vontade de nossa gente ser respeitada e ouvida. Precisamos ser os senhores de nosso próprio destino.

Quando o G-7 (os 7 países ricos), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional - FMI etc emprestam dinheiro ao Brasil, eles cobram juros. Juros que representam falta de remédios nos nossos hospitais, professores nas nossas escolas, comida para os pobres e principalmente representam o empobrecimento de nosso povo e o sacrifício da nossa natureza, a destruição de nossas florestas. Como essa gente fala em preservação ambiental se não se preocupa com a preservação social? Como se vai discutir em Durban o destino de nossas florestas (Áreas de Preservação na Amazônia - ARPA) se não estamos autorizados pelos senhores do Capital a discutir os nossos próprios destinos? Se não temos mais recursos naturais importantes para o equilíbrio climático dos países ricos somos africanizados - esquecidos. Lembrem-se da Aids naquele continente. Por isso é hora de cobrarmos os nossos oportunos juros ambientais. Não podemos permitir que a sociedade planetária cobre com o sacrifício de milhões de vidas os seus holográficos números (juros) sem cobrarmos merecidamente o valor de nossos recursos florestais que hoje doamos gratuitamente a todos no planeta, inclusive aos países ricos.

Durban poderá se tornar um Rubicon (rio próximo a Roma onde Júlio César disse a célebre frase “alea jacta est” - a sorte está lançada) e dar início a uma verdadeira relação entre as sociedades detentoras de recursos naturais e a sua autodeterminação geopolítica. Propor ao mundo globalizado a criação dos juros verdes capazes de priorizar a valorização da vida como caminho principal da preservação ambiental.

É preciso também dizer ao Brasil que não estamos mais no período das capitanias hereditárias. Não podemos mais permitir que o Brasil nos considere apenas parte de seu território. Somente juntos e todos sendo o próprio Brasil. Para finalizar este primeiro ano de criação do parque do Tumucumaque gostaria de repetir as últimas palavras daquela carta a FHC:

E, neste cenário de atrocidades federativas, estamos perdendo também o direito de ter nossas terras e até nossa própria história. Agora, após mais de quatro séculos de ocupação em terras brasílis, nos levam a última saga de nossas vidas: “... a liberdade de viver para onde nossa alma nos levou". Hoje nos parece que o executivo federal se submete à pressão dos países ricos, novos deuses do planeta, e que mais cedo ou mais tarde indicarão sem piedade onde poderemos viver e de quais formas deveremos sobreviver.

Queremos construir os nossos próprios sonhos.

Macapá, 22 de agosto de 2003

ANTONIO FEIJÃO
Presidente da Fundação Amazônica de Migrações e Meio Ambiente