A VIDA NAS BAIXADAS

João Silva

Por absoluta necessidade, tive que trafegar por ruas nunca dantes trafegadas no velho Igarapé das Mulheres, rebatisado Perpetuo Socorro, que carrega o estigma de reduto eleitoral do ex-governador Annibal Barcellos, o que pode explicar o abandono a que está relegado nos últimos anos - excluidas as obras de urbanização da orla e complexo de lazer, mesmo assim seriamente comprometidas.

Por algumas horas conversei com pessoas do povo, com gente simples que mora ao norte da Pedro Américo e conheci sua conformação diante da realidade brutal de violência, de abandono, de ausência dos poderes públicos, que se reflete no abastecimento de água precário, esgoto à céu aberto, em conseqüência, na proliferação de doenças como a leptospirose, a diarréia infecciosa e a dengue, quadro que se completa com as vielas de chão batido, ocupadas em quase toda sua extensão, por verdadeiros atoleiros urbanos, que, dizem, resistem a boa parte do verão brabo de Macapá.

É uma visão preocupante que não se limita ao que constatei naquela área entre a Pedro Américo e a chamada baixada do Adonias. Todo santo dia a televisão nos mostra outras famílias da periferia de Macapá submetidas aos mesmos problemas sociais, com testemunho também do rádio, que dar ressonância ao pedido de socorro de quem ainda pode pedir socorro, enquanto das páginas dos jornais vêm as fotos que revelam, em toda sua crueza, o abandono construindo os cenários de carência, de pobreza e desesperança, em que a morte parece mais eminente que a vida.

Entrando nesses lugares, as dolorosas desigualdades ganham forma, crescem diante de nós, dos que se importam com os problemas de uma cidade, de um Estado, com a infelicidade do povo de um País, podendo ser vistas com a nitidez das desgraças com as quais não poderíamos conviver mais um dia sequer. Gostaria muito que as chamadas autoridades constituídas conhecessem melhor a realidade das baixadas de Macapá, com suas “vísceras” expostas quotidianamente - e não apenas em véspera de eleição.

Claro que o quadro a que me refiro é resultado amargo da falta de um plano piloto, da falta de investimentos; é fruto também da ocupação criminosa das áreas de ressaca e até da briga de grupos políticos rivais, fato que impediu, por exemplo, a construção das pontes do Perpetuo Socorro; existe ainda por conta de abissal e impiedosa concentração de renda que dia e noite tece as desigualdades que atormentam! E o pior é que nem sempre ao arrepio da lei, como se poderia pensar.

A lei, em muitos casos, acoberta interesses da elite nos governos, no parlamento e nos tribunais, nas forças armadas, à sombra do imperativo constitucional da autonomia dos poderes, o mais que suficiente para estabelecer a farra das aposentadorias e remunerações estratosféricas, tudo corrigido e reajustado sempre que possível. Estes vivem num Brasil a parte, que não é o dos servidores públicos ( há oito anos chupando o dedo), nem dos trabalhadores do salário mínimo, nem do zé povinho que só serve para votar e passar fome.

E haja político corrupto falando em honestidade na televisão...Ministros, desembargadores, juizes se levantando na mídia para combater o controle do poder judiciário, como se no judiciário não existissem as imoralidades que permeiam o serviço público no Brasil, como se na instituição não existisse corrupção, cumplicidade com o crime e criminosos. Nesse particular, palmas para o sergipano Carlos Augusto Ayres Brito, indicado para Ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele disse, na Tv Senado, que a reforma do Judiciário é necessária e o controle do Judiciário muito mais necessário.

Claro que os salários atraentes, com vantagens em cascata e tudo mais, pertencem aos privilegiados, mas as desgraças produzidas por um País injusto, não: estas pertencem a todos e enlutam famílias, mancham com o sangue de inocentes o quotidiano nas cidades do Brasil. E podem bater à porta de qualquer um, desde a porta dos pobrezinhos da baixada do Adonias, naturalmente muito mais expostos, até à mansão horrollydiana do empresário Sílvio Santos, podendo também importunar um presidente da república, um prefeito, um governador, um ministro, um desembargador.

Olhando buraco que é mais em cima, os congressistas não podem ser avalistas da hipocrisia nacional, das meias-medidas, das reformas que não respeitam o trabalhador, o servidor público e que poderão gerar mais injustiça e mais desesperança, cenário em que sobrevivem os espertalhões, às oligarquias institucionalizadas no poder...As mesmas que salvaram recentemente o senador Antônio Carlos Magalhães, e que se orgulham de mais de meio século de negócios bem sucedidos na política, do envolvimento com governos corruptos e a prática do nepotismo escrachado, com o beneplácito da impunidade que campeia.

Fora as pouquíssimas e boas notícias, tantas desgraças juntas, acabam diminuindo nossa orgulho próprio e desfalcando a sociedade dos recursos que poderiam melhorar a realidade nas baixadas e proporcionar uma vida mais digna aos pobrezinhos da Pedro Américo e do nosso País...