Pelo fim do voto obrigatório

Emanoel Reis

Dia desses, um ex-governador do Amapá, que agora é "radialista", comentou ser favorável à continuidade do voto obrigatório. Para ele, o eleitor ainda não está preparado para exercer a democracia. Após ouvir essas observações, conclui: então, se o cidadão não sabe votar, os políticos que aí estão foram ilegitimamente eleitos.

Todo mecanismo que obriga é autoritário.
Democracia pressupõe liberdade de escolha, o livre arbítrio em sua plenitude. As últimas eleições revelam um eleitor que não quer mais ser obrigado a nada. Isso fica evidenciado na quantidade de abstenções, votos brancos e nulos cada vez mais crescente.

É o desencanto provocando indiferença. Para os eleitores faltosos, político é sinônimo de ladrão. E fim de conversa. Não acreditam mais nas promessas de palanque, tampouco em quem se apresenta com soluções prontas. Sabem que quando eleitos irão compactuar com todo tipo de negociata que lhes dê algum lucro.

O cidadão não pode ser tangido para a seção eleitoral como gado. Mas o nosso ex-governador não
pensa assim. Acabar com a tal obrigatoriedade? Nem pensar. Muito político se elege graças exatamente a isso: aos seus "currais". Sabe que no dia em que o voto deixar de ser obrigatório corre o risco de perder o controle da situação. Nem cogita debater o assunto, embora saiba que a obrigatoriedade do voto é um entulho da ditadura militar.

Acabar com o voto obrigatório deveria ser a bandeira de luta de todos os partidos. Ninguém deve ser forçado a comparecer a uma seção para votar nesse ou naquele candidato - ou simplesmente para anular o voto. Se isso acontece é porque os políticos não acreditam na maturidade do eleitor. Então, se nós não estamos preparados para escolher nossos governantes não podemos ser obrigados a votar.

Ora, se não acredito em nenhum candidato, por mais honesto que ele possa parecer, é meu direito não querer votar. Alguém vai argumentar que a legislação me garante isso, basta ir à seção e anular o voto.
Mas, se eu não quiser ir à seção? Se eu não quiser me expor à peçonha dos cabos eleitorais? Porém não posso fazer isso. A lei me impede de exercer este direito.
Para não ser penalizado, sou obrigado a entrar em fila, enfrentar sol e chuva, passar pelas mãos de mesários famintos, digitar o botão "anula", pegar meu título e sair. Quanto desconforto!

Tenho certeza de que com o fim do voto obrigatório muito político desonesto não seria (re) eleito. Sabe aquele "político profissional" acostumado a comprar votos? Pois é, ele dificilmente se elegeria.
Não teria mais argumentos para coagir cidadãos indefesos. Que parlamentar está disposto a se dar em holocausto por esta causa?