WOODSTOCK TUCUJU
Lucas Barreto

No final dos anos 60 o homem pisou na lua e os jovens de todo mundo uniram-se em Woodstock para cantar a paz e pregar "faça amor, não faça guerra". No Brasil, o Tropicalismo ecoava a reverência aos Beatles e denunciavam com suas canções as barbáries do regime militar e a saudade da pátria amada. "Um dia a areia branca seus pés irão tocar..."

No Amapá, ares de modernidade começavam a chegar com a TV Colorado RQ e as novidades do primeiro mundo trazidas pela Icomi. Nos bailes do Santana Esporte Clube e Círculo Militar muitos se enamoraram. As janelas de veneziana sempre abertas simbolizavam a tranqüilidade de um povo bom.

Mais de 30 anos se passaram. O mundo mudou. Woodstock não foi capaz de formar uma humanidade solidária. As desigualdades entre as nações se acentuaram. O fosso entre ricos e pobres amplia-se a cada dia. O Brasil também mudou. Gilberto Gil, uma das lideranças do Tropicalismo e crítico do Estado virou Ministro.

O Amapá perdeu o seu ouro negro e ganhou o ferro velho de Serra do Navio. Partiram Alcy Araújo, Nelson Salomão, Hélio Pennafort, Sacaca, Chaguinha, Edson Correa, Coaracy Barbosa, Aracy Monrt'Alverne, João Queiroga, Alegria e Alberto Alcolumbre, Waldemiro Gomes e muitos outros... Permaneceram suas obras e atitudes. Particularmente, duas preciosidades....Arinaldo Barreto e Nina Nakanishi...O Amapá deixou de ser território de segurança nacional para ser Estado da Federação. O Amapá tem gente que pensa e cresce. O Amapá não é lugar para a guerra.

Hoje, sentado na cadeira de presidente da Assembléia Legislativa do Amapá e passado um ano de trabalho faço uma reflexão do que fizemos, do que deixamos de fazer e o que gostaríamos de ter feito. Nunca aceitamos o fato de um trabalhador chegar ao final do mês e não receber seu salário.

Os funcionários da Assembléia Legislativa do Amapá estão com seus salários em dia. Também contribuímos para organizar a estrutura da casa. Da ambientação ao cafezinho! Do bom dia ao seja bem vindo! A Assembléia está mais humanizada.

Muitas coisas deixamos da fazer. A dívida herdada ainda persegue nossa gestão. Respondemos a mais de 200 processos decorrentes de ações trabalhistas e outras. Também não conseguimos planejar a contento a Assembléia para o futuro.

Não temos espaço para um melhor atendimento a população. Não se trata de estimular relações clientelistas, pois isso significa "amizade desequilibrada" e temos combatido essa prática negativa na Assembléia. Entendemos que a Assembléia deve ser um espaço público e não privativo dos deputados.

Nossa Constituição Estadual conclama por uma boa revisão e o regimento interno da Assembléia necessita de reformulação para fortalecer a democracia.

A harmonia entre os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo é um fato no Amapá. Essa harmonia é um indicador de desenvolvimento institucional. Isso significa que as instituições amadureceram e conseguem conviver respeitando suas diferenças e identidades. Entretanto, além de contribuir para a construção das instituições públicas do Amapá, gostaríamos de concentrar mais nossas energias na construção social dos amapaenses.

Gostaríamos de estimular a construção de políticas para a formação de capital social no Amapá, entendido como as características de uma organização social, como confiança, normas e sistemas que contribuem para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas e a cooperação espontânea.

Não sei se precisamos de reformas ou revoluções. Mas em algum momento precisamos que a sociedade amapaense relembre Woodstock e diferencie quem prega a paz e quem prega a guerra
em nosso Estado.

Lucas Barreto, presidente da Assembléia Legislativa do
Amapá.