Denúncia e denuncismo

Zuenir Ventura
O Globo

Os personagens aqui tratados não têm nada em comum: nem partido, nem orientação política ou ideológica. Os que os une é o fato de terem sido vítimas de acusações levianas ou de má-fé atingindo suas reputações. Do primeiro, Rafael Greca, recebi um e-mail em que agradece o escândalo Waldomiro por ter lançado luz sobre seu "antigo calvário". Quanto ao segundo, o ex-governador do Amapá João Capiberibe, está ameaçado de perder na Justiça o mandato de senador, junto com a deputada Janete, sua mulher.

Greca diz que foi acusado pelo procurador Luiz Francisco de Souza, "então filiado ao PT e muito celebrado por parte da mídia", com base em textos do repórter Mino Pedrosa. "O demolidor de ministros, que fazia dueto com Luiz Francisco, era assessor do bicheiro Carlinhos Cachoeira, como mostrou a fita veiculada pelo 'Jornal Nacional'. O jornalista me acusava de estar ligado aocrime organizado quando ele, sim, era pago com o dinheiro da contravenção."
O ex-ministro de Esporte e Turismo do governo FH se sente enfim redimido:
"Graças a Deus, o mundo é redondo. E a gente, quando tem saúde para vê-lo
girar, pode assistir a essas coisas.

A história do casal Capiberibe é pior. Uma ação acusando-os de compra de votos foi julgada improcedente pelo Ministério Público Federal e pelo TRE do Amapá, mas mesmo assim acabou no TSE, em Brasília. No dia 1, os dois já tinham contra si três votos, quando o ministro Fernando Neves, o quarto a votar, pediu vista do processo. A acusação se baseia no depoimento de duas mulheres, que teriam confessado a venda de seu falso testemunho ao ex-senador pelo PMDB Gilvan Borges, que move a ação e, se Capiberibe for cassado, assume uma cadeira no Senado.

Famoso por suas idéias e projetos extravagantes, como a apologia do nepotismo ("parente em cargo de confiança é defesa contra as intrigas e as traições políticas") e a proposta de anexar a Guiana Francesa ao Brasil, Gilvan não tem nada de bobo. Quando senador, conseguiu arrematar cinco concessões de rádio e uma de televisão.

Contra Capiberibe, que implantou no Amapá um programa modelar de desenvolvimento sustentável, há poderosas forças, como o crime organizado que ele desafiou ao apoiar a CPI do narcotráfico. Em sua defesa, têm-se levantado vozes de todos os partidos (ele é do PSB), inclusive do PMDB, como Pedro Simon: "Chega a soar mal querer atingir um homem como Capiberibe em um país como o Brasil, que não atinge ninguém." Ou então atinge errado. O denuncismo é tão nocivo e perverso quanto útil pode ser a denúncia.