007 - Um Novo Dia Para Morrer


Mais um filme da série 007 estréia no circuito cinematográfico nacional, atingindo a marca de 20 filmes rodados em quarenta anos de criação da personagem James Bond pelo escritor inglês Ian Fleming.

Nascido no alvorecer da “Guerra Fria”, que se caracterizava pela divisão geopolítica do mundo em áreas de influência capitalista ou comunista, a série teve inicio no cinema com o filme “O Satânico Dr. No”, em 1962.

Politicamente incorreto, o agente secreto James Bond é um elegante e versátil espião a serviço da coroa britânica, sempre no encalço de vilões e facínoras perigosos, para desestabilizar planos criminosos e salvar o mundo, ainda que, no mais das vezes, também contribua com a sua destruição.

Versado nas mais diversas técnicas, o espião britânico parece mais uma espécie de super-herói com poderes e habilidades ilimitadas. Neste filme “Um novo dia para morrer”, por exemplo, conjuga a façanha de ser um surfista radical, um exímio esgrimista, um expert piloto de carros e aviões, além de atirador impecável, com pausa para momentos íntimos, às vezes românticos, outras, nem tanto, com maravilhosas mulheres (desta feita a Bond girl é Halle Berry, Oscar de melhor atriz em 2002).

“Um novo dia para morrer” é dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori (No limite), cujo desafio maior seria manter intacta a marca JB (James Bond) após quatro década de sua aparição no cinema, preservando suas peculiaridades, mas adaptando-a ao novo contexto mundial.

Pode-se dizer que o diretor logrou alcançar o seu intento, particularmente pelo fato de que o enredo é em parte ambientado na Coréia do Norte, neste delicado momento de tensão internacional causada pela pressão norte americana ao Iraque e à Correia do Norte.

Note-se que não constitui uma “feliz coincidência” o fato de James Bond, agente secreto inglês, fazer-se acompanhar pela americana Jinx (Halle Yune), num momento em que Tony Blair e Bush andam de braços dados. Contudo, é interessante observar que o diretor, por ocasião da edição do filme, não poderia imaginar que haveria uma cisão na postura da União Européia provocada pela França e Alemanha, fato que acabou por salientar a “aliança” anglo-americana no filme.

Mais uma vez o filme segue a velha fórmula dos seus antecessores: organização criminosa tem planos de supremacia sobre o mundo, que dependerá da habilidade e versatilidade do MI-6, particularmente seu melhor agente (007), para desestabilizar o mal e salvar o mundo.

Desta feita, o lado mau da história está aos cuidados do coronel norte-coreano Zao (Rick Yune) que, com a ajuda de Gustav Graves (Toby Stevens), planeja fulminar o ocidente, por condenar os seus métodos para com os orientais.

O ambiente fílmico é uma Islândia gélida e repleta de neves, além da igualmente fria paisagem coreana, intermediadas pela sempre festiva Havana. Aliás, a série não perde a mania de criar esteriótipos, como quando mostra uma Cuba de ruas sempre repletas de gente dançando, em suas camisas demasiadamente coloridas.

Pierce Brosnan, na minha opinião, está mais confortável agora como 007 do que nos filmes anteriores e, depois de Sean Conery (que levou à telona os primeiros filmes da série), é a melhor performance de atuação.

O filme, que já é o melhor desempenho de bilheteria da série - U$ 350 milhões somente na estréia americana, é uma excelente opção de divertimento, na medida em que trilha a senda do “cinemão”, que vê o cinema apenas como mero espetáculo descomprometido com qualquer discussão estética.

Mas peca à medida que abusa dos recursos pós-filmagens e das reconstituições computadorizadas de cenas que, em procedimento normal de filmagem, não seriam possíveis nem mesmo com os tradicionais dublês, o que pode desagradar a alguns fãs da série e soar absolutamente inverossímil para outros.


Jorge Coimbra, 27.01.2003.