Abril Despedaçado

Sempre acreditei que a invariável riqueza da realidade brasileira, se composta em ópera, deixaria nada a desejar a um Bizet. Esta minha crença se confirmou, assim que assisti a “Abril Despedaçado”.

O filme, dirigido por Walter Salles e adaptado ao cinema a partir da obra do albanês Ismail Kadaré, narra em dimensão fabulosa a história do secular conflito entre duas famílias do sertão nordestino, os “Breves” e seus inimigos “Ferreiras”, que travam uma guerra familiar cultivada e respeitada por incontáveis gerações de ancestrais e cuja origem se perde ao longo do tempo.

As seqüências iniciais do filme partem do assassínio de um irmão mais velho de Tonho (Rodrigo Santoro), que, pela tradição familiar, teria o dever de restabelecer a honra dos Breves, mantando o filho mais velho dos Ferreira.

Ao cumprir seu papel na insana tradição, Tonho sabe que será o próximo alvo do ódio da família rival, por isso sua vida é dividida entre o tempo que já viveu e o que falta para morrer, assim que, segundo o costume, a camisa ensagüentada do morto exposta ao sol mude de cor, sinalizando o fim do luto e da trégua.

Mas vive a espera de sua morte assim como deseja profundamente que a lógica dos fatos seja subvertida. É a um só tempo fiel escravo da inexorabilidade e sujeito subversivo do tempo, da vida e da liberdade.

“Abril despedaçado” é um filme primoroso, com uma direção quase irrepreensível, uma plasticidade perfeita e um ritmo cadenciado e pulsante, cuja caracterização é dada pelo movimento circular da bolandeira e pendular do balanço, onde a similitude com um relógio em atividade traduz a idéia da proximidade gradual do momento fatídico.

Walter Salles - também diretor de “Central do Brasil” e “Terra Estrangeira”, com sua já conhecida verve, fez um filme riquíssimo e delicado, em que a violência dos acontecimentos é subtraída à tela, para dar lugar à violência subjetiva dos personagens ou mesmo para enfatizar a violência do descompasso cultural sobre as pessoas.

Além disso, abstrai com paciência artística a poesia eventualmente possível da vida rudimentar e tosca do velho sertão nordestino, particularmente na seqüência em que Tonho (Santoro) cai do balanço e se finge de morto para depois surpreender graciosamente o irmão Bacu (Ravi Ramos Lacerda) e o pai (José Domunt), que, aliás, possui um talento dramatúrgico indiscutível e invejável.

O filme, que também pode ser visto em DVD ou VHS, recebeu indicação para o Globo de Ouro em 2002 e foi premiado com o Leoncino D’Oro no Festival de Veneza em 2001, inscreve-se na melhor página do agora definitivamente reconhecido cinema nacional e reafirma o inquestionável talento de seu internacionalmente premiado diretor.


Jorge Coimbra - 19 de janeiro de 2003.


Fotos: Christian Cravo e Walter Carvalho