Apocalypse Now Redux


Apocalypse Now é, sem dúvida, um daqueles filmes que justificam o estatuto de arte ao cinema.

Lançado no Festival de Cannes em 1979, de onde obteve sua primeira premiação com a Palma de Ouro, o filme, que já conta com mais de 20 anos de existência, foi recentemente relançado com cerca de 53 minutos adicionais, inéditos na montagem original, com versão em DVD recém publicada, o que acabou por motivar sua inclusão em nossa coluna.

Dirigido e produzido pelo premiadíssimo Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), o filme reúne um elenco inacreditável (Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Harrison Ford, para citar os mais conhecidos), rodado nas Filipinas sob condições as mais adversas, entre as quais merece registro o enfarte sofrido pelo ator Martin Sheen.

Apocalypse Now insere no contexto da Guerra do Vietnã a história de uma missão americana liderada pelo Capitão Willard (Martin Sheen), que se conduz ao Camboja para assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um líder militar americano que enlouqueceu vivenciando os horrores da guerra.

A nunca assazmente engrandecida atuação de Marlon Brando confere à figura do Coronel Kurtz uma aura estranhamente brutal e ao mesmo tempo lúcida, particularmente no momento em que Kurtz, sob uma atmosfera densa e circunspecta, recita o poema “Os Homens Ocos” de T. S. Eliot, que parece expressar toda a angústia da condição humana:

“Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada.”

É possível abstrair do texto fílmico uma contundente e corrosiva leitura do desempenho dos Estados Unidos na guerra, que protagonizou capítulos insanos da história, ao promover a invasão da nação vietnamita e imprimir àquele povo a devastação, o sofrimento e a morte.

Substancialmente épico, Apocalypse Now caracteriza com arte a noção sombria da guerra, particularmente na seqüência em que o Tenente-Coronel Kilgore (Robert Duvall) promove um ataque a um pequeno povoado, trucidando velhos, mulheres e crianças ao som implacável de “A Cavalgada das Walquírias” de Wagner.

Aliás, a abertura do filme, sob a trilha do “The Doors”, já assinala com veemência a riqueza sonora do filme, cuja maestria é devida a Walter Murch, premiado com o Oscar de melhor som.

A fotografia do também oscarizado Vittorio Storato, não menos perfeita, está entre as vinte melhores da história do cinema, o que nos dá a dimensão exata da grandiosidade do que estamos falando.

O surrealismo de Apocalypse Now é latente, destila da tela e desarma com profundidade as críticas, a meu ver equivocadas, à sua vertente alienante.

Se é verdade que sempre haverá quem duvide do estatuto de arte do cinema, principalmente em épocas de cinema eminentemente digitalizado, não é menos certo que contra tais argumentos sempre será possível responder eloqüentemente, invocando filmes da envergadura de “Apocalypse Now”.


Jorge Coimbra, Macapá, 01 de dezembro de 2002.