A propósito de Buñuel


Realizou-se no período de 28/10 a 09/11, em Brasília, uma mostra de cinema da fase mexicana do diretor Luis Buñuel, evento promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil em parceria com a Embaixada do México.

Luis Buñuel, sendo espanhol - da cidade de Aragão, passou parte significativa de sua vida no México - cerca de 37 anos, notadamente no período em que assolava a Espanha a guerra civil espanhola e a ditadura franquista.

Integrante de um grupo de vanguardistas, entre os quais Pablo Picasso, Salvador Dali, Federico García Lorca, Max Ernst, André Breton e Jean Cocteau, Buñuel iniciou sua carreira de cineasta tardiamente, tendo como marco inaugural um filme feito em colaboração com o pintor Salvador Dali, chamado Um cão andaluz.

Em 1930, através de Um cão andaluz, Buñuel inaugura um novo capítulo na história do cinema, na medida em que transporta para a tela um movimento vanguardista que já guanhara forma e conteúdo através do trabalho de alguns de seus amigos, o surrealismo.

Com A idade do ouro, deu continuidade ao programa surrealista, através do qual investiu contundentemente contra as convenções, não apenas as do cinema narrativo - preponderante então, mas sobretudo as convenções sociais.

Após longo período sem filmes, fato este motivado pelas conturbações sociais e política por que passava a Espanha, Buñuel deixa a Europa, partindo para os Estados Unidos, em busca de trabalho, onde acaba não encontrando as condições necessárias para desenvolver sua carreira, pois só realiza trabalhos secundários, o que o leva ao México.

No México, enfrenta dificuldades com a própria sobrevivência e acaba trabalhando em projetos típicos do sistema cinematográfico mexicano, realizando filmes eminentes comerciais, entre os quais situam-se Gran Casino (1946) e El Gran Calavera (1949).

Contudo, a experiência de Buñuel com o sistema cinematográfico mexicano permite-lhe reunir as condições materiais necessárias para que venha a lume um de seus maiores projetos cinematográficos: Os esquecidos, filme que, dado seu forte conteúdo de crítica social - eis que, baseando-se em fatos reais, denuncia a vida miserável dos meninos de rua nos subúrbios do México - foi exibido em Cannes no ano de 1951, onde ganhou a Palma de Ouro de melhor direção e causou completo estarrecimento do público, diante do seu realismo e do seu conteúdo profundamente contestatório.

Os esquecidos demarca um novo início para a filmografia de Buñuel, colocando-o no centro das atenções da crítica mundial. Em agosto de 2003, a película se tornou patrimônio cultural da humanidade, passando a integrar o programa Memória do Mundo, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

A nova fase de Buñuel, inaugurada através de Los olvidados, passa a mostrar não mais a obsessão pela crítica externa ao cinema narrativo clássico, mas sim a apropriação da própria técnica narrativa tradicional para uma posterior subversão da mesma.

Em O anjo exterminador, por exemplo, Buñuel parte de uma narrativa tradicional clássica, onde mostra uma comitiva de respeitáveis burgueses que acabam de sair da Ópera “A Noiva de Lammermoor” e são convidados para um jantar, durante o qual e misteriosamente os empregados vão, um a um, deixando a casa, restando ao final apenas o primeiro mordomo e os demais convivas, que após o jantar e um recital de piano tentam se despedir e sair, mas não conseguem ultrapassar o limiar da sala, iniciando aí uma série de acontecimentos inusitados.

No filme Viridiana, possivelmente a obra-prima de Buñuel, uma noviça, às vésperas de fazer os votos, visita seu tio e benfeitor Dom Jaime, um viúvo solitário e abastado, que se apaixona pela sobrinha e tenta estuprá-la. Viridiana deixa, então, a casa e está a caminho do convento, quando recebe a notícia do suicídio do tio e decide voltar e dedicar sua vida a serviço dos pobres e mendigos.

Á primeira vista, o que parece uma história convencional e cômoda em Viridiana, não passa de uma estratégia própria da estética buñuelesca para, gradativa e sutilmente, dar vazão ao imprevisível, ao irracional, ao inconsciente e ao absurdo, elementos estes tão caros ao surrealismo.

A propósito da fase mexicana de Luis Buñuel, que antes era considerado um período “menos expressivo” na sua carreira, uma vez que o diretor se notabilizou com filmes da sua fase francesa, tais como O discreto charme da burguesia, A bela da tarde, O fantasma da liberdade e Esse obscuro objeto do desejo, atualmente há um consenso acerca da sua primordialidade na filmografia de um dos maiores e mais célebres cineastas do século XX.

Jorge Coimbra
Brasília, 12/11/2003.