O Caminho das Nuvens

O filme narra a história aventureira de uma família nordestina típica: pobre, sofredora e numerosa, cujo pai, Romão (Wagner Mourão), decide partir com mulher e filhos para a cidade do Rio de Janeiro em bicicletas, em busca de um trabalho que lhe permita um salário de “mil real”.

Baseado em história real, este road-movie é um fiel retrato sócio-histórico da migração nordestina para as cidades do sul, em busca de trabalho e melhores condições de vida, motivada pela extrema miséria fruto das desigualdades sociais e regionais, ainda hoje cada vez mais gritantes em nosso país.

Em seu trajeto estrada afora, a família, composta de pai, mãe e cinco filhos - entre os quais há um bebê de poucos meses, depara-se com toda sorte de dificuldades e aventuras inusitadas, experimenta ao mesmo tempo a solidariedade de alguns e a indiferença de outros.

O aspecto interessante da história foi categoricamente demarcado pelo filme na pessoa de Rose (Cláudia Abreu), a mulher de Romão, que, a cada cidade ou pequeno povoado por onde passam, canta com voz melancólica algumas das antigas canções de Roberto Carlos, acompanhada pelo solo triste de um velho violão, comoventemente tocado por um dos filhos, com o que angariam dos ouvintes alguns parcos trocados necessários para seguir em frente.

“O caminho das nuvens” é o primeiro longa-metragem do diretor Vicente Amorim, que estreou na direção com o documentário “2000 Nordestes”, após ter trabalhado como assistente de direção dos cineastas Bruno Barreto e Cacá Diegues.

Tecnicamente, o filme não é perfeito: apresenta alguns problemas no roteiro (típicos de filmes baseados em fatos reais), tal como uma insistente horizontalidade da narrativa, acentuadamente documentária, em detrimento de uma maior caracterização do temário e dos próprios personagens.

Contudo, tem boa trilha sonora, a qual é enriquecida pela evocação clássica das músicas de Roberto Carlos. Além disso, as atuações de Cláudia Abreu e de Wagner Mourão são estupendas, indefectíveis e dignas de registro, sem falar da convincente performance de Ravi Ramos Lacerda, o mesmo novel ator que teve presença marcante em “Abril despedaçado”.

“O caminho das nuvens” denota o conflito subjacente entre a resignação do ser humano ante um destino irremediável, por um lado, e sua nata insatisfação, sua capacidade de crença e de busca de superação das limitações objetivas e subjetivas, por outro; e nesse passo, realiza uma função eminentemente pedagógica.


Jorge Coimbra
Brasília (DF), 28/09/2003.