Carandiru


Apesar do tempo que já transcorreu desde a estréia no Brasil de “Carandiru”, de Hector Babenco, não resisti à tentação de registrar minhas impressões, ainda que tardias, sobre o filme.

Dirigido por Hector Babenco (notabilizado por filmes como “O beijo da mulher aranha” e “Pixote, a lei do mais fraco”), com fotografia de Walter Carvalho e direção de arte de Clóvis Bueno, “Carandiru” tem roteiro adaptado do livro “Estação Carandiru”, do médico Dráuzio Varella, que por dezoito anos prestou trabalho voluntário na Casa de Detenção em São Paulo.

A temática da reclusão e da exclusão social já tem antecedentes na obra filmográfica de Babenco: veja-se, a exemplo, em “O beijo da mulher aranha”, o drama vivido por Willian Hurt (travesti) e Raul Julia (preso político), companheiros de reclusão numa minúscula cela de um rotundo presídio.

Em “Pixote, a lei do mais fraco”, Babenco aborda o tema da exclusão social e da criminalidade a partir do drama de uma criança que cresce em meio à miséria e à delinqüência do seu contexto social, tenta a todo custo trilhar caminho diverso, mas acaba, inexoravelmente, condenada pela sociedade a cumprir o “destino” cruel e trágico reservado à maioria das crianças pobre deste país.

Apesar da filmografia reconhecidamente engajada, “Carandiru” apresenta vários problemas na questão temática.

É sem dúvida um filme ousado e bem intencionado, ao levar à tela de cinema o submundo e a subvida dos condenados do desumano sistema penitenciário brasileiro, o desvalor da vida e a total impossibilidade de reabilitação para alguém que integre tal realidade.

Além disso, merece aplausos a denúncia da chacina levada a efeito pela polícia militar de São Paulo, que, em 02/11/1992, assassinou 111 presos do Complexo Penitenciário de Carandiru, sob o governo de Fleury.

Ocorre que a narrativa fílmica prendeu-se demasiadamente, em sua estrutura, ao relato contido no livro, em prejuízo de uma melhor contextualização do poder institucional e da corrupção policial.

No filme, sequer é possível vislumbrar a origem da ordem criminosa que levou à chacina e tampouco há, precisamente, a constatação da flagrante impunidade dos integrantes do grupo que invadiu o presídio.

Há, talvez em exagero, uma preocupação em trazer à tona da existência as várias personagens que integram a trama, evidenciando suas histórias pessoais e idiossincrasias, o que denota ao filme um aspecto fortemente folclórico.

A reconstrução do ambiente fílmico, bem assim a iluminação rudimentar associada a uma vertente artesanal de filmagem são os elementos mais interessantes de “Carandiru”, emprestando à película a impressão sombria e gótica do ambiente carcerário.

Destaque para a brilhante atuação de Milton Gonçalves (como Chico) e para o cada vez mais surpreendente Rodrigo Santoro, no secundário papel do travesti Lady Dy.

Não há dúvida de que, apesar das limitações facilmente constatáveis, “Carandiru”, além de já ostentar a marca de ser a produção mais cara a que chegou o cinema brasileiro, também se insere entre os melhores filmes do efervescente cinema nacional, senão pela intensidade, ao menos pela sua coragem e ousadia.


Jorge Coimbra.
Brasília (DF) - 10.06.2003.