Chicago

Por qual razão os musicais produzidos em Hollywood nas décadas de 30 e 40 fizeram tanto sucesso em meio ao público de cinema, para depois serem relegados enquanto gênero e apenas lembrados com nostalgia como um momento glamoroso da sétima arte?

Primeiramente, porque o surgimento dos musicais coincidiu com outro evento da maior importância para a história do cinema, que foi a sua sonorização, ambos trazidos ao público através do filme “O Cantor de Jazz”, primeiro longa metragem falado, bem como primeiro musical, exibido no Warner Theather (New York), em 06/12/1927.

A sonorização do cinema, por si só, foi um acontecimento significativamente marcante, ao permitir ao público uma experiência mais complexa com o filme, que a partir de então podia ser visto e ouvido simultaneamente.

Mas os musicais iam além, propunham um entretenimento que tinha na música o seu fundamento, apresentavam histórias banais e sem muita complexidade e, a exemplo da Broadway, buscavam nos melhores dançarinos e coreógrafos a inspiração para proporcionar ao público um espetáculo alegre e glamoroso.

No fim da década de 20, a quebra da bolsa de Nova York e a conseqüente Grande Depressão impuseram ao mundo uma época de grandes dificuldades e mazelas, o que levou o grande público a buscar no cinema e seus musicais o alento e o entorpecimento necessários para enfrentar a dura realidade econômica.

Foi assim que nas décadas seguintes o musical floresceu, popularizou-se e rendeu vultosos dividendos aos grandes estúdios da época, sustentado pela grandeza e talento de astros e estrelas como Gene Kelly e Ginger Fred entre outros, que juntos celebrizaram passagens inesquecíveis da história do cinema.

Talvez esta contextualização sirva para explicar porquê “Chicago” foi tão festejado e premiado pela Academia de Hollywood: além do importante Oscar de melhor filme, levou as estatuetas de montagem, atriz coadjuvante, figurino e direção de arte.

É sintomático que, em tempos de guerra e violência, a brutal realidade tenda a superar qualquer ilusão - ainda mesmo que esta ilusão seja cinematográfica, o que suscita nas pessoas um certo sentimento de reclusão e fuga, em busca de um entretenimento, digamos, mais fantasioso e sereno, como o que se encontra em “Chicago”.

Não significa dizer que “Chicago” proporciona uma espécie de divertimento basicamente alienante, nem mesmo que o filme seja desconectado do próprio contexto que se propõe a retratar.

Digo apenas que filmes como “Gangues de Nova York” (Martin Scorsese) despertam o tipo de criticidade aos acontecimentos da vida que, ao que parece, a academia holywoodiana prefere esquecer, pois lembra-los significaria repensar sua posição no mundo em guerra, em que o máximo de protesto que se pode fazer é substituir o tapete vermelho por outro de outra cor qualquer, quando talvez (quem sabe?) fosse verdadeiramente o caso de, como no passado, cancelar o evento em protesto, aí sim, veemente e combativo.

Mas havia “Chicago”, um filme sem maiores méritos, sem inovações, às vezes ingênuo - ao pretender reconstituir um musical típico dos anos áureos, sem que exista hoje um Gene Kelly ou uma Ginger Fred; às vezes patético - ao exibir Richard Gere num sapateado cômico e desinteressante, que a despeito de tudo, propôs-se a ser um divertimento “leve” e “tranqüilo”, sob a contemporaneidade de uma guerra pretensamente “cirúrgica” que bombardeia maternidades, num mundo absurdamente surreal.

O musical é adaptado da peça homônima concebida por Bob Fosse para a Broadway e dirigido pelo estreante Rob Marshall, no qual se conta a história de Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) e Roxie Hart (Renée Zellwegger), mulheres que buscam ardentemente o estrelato a qualquer custo, mesmo que para tanto precisem matar maridos, irmãs ou amantes, o que, aliás, acaba acontecendo.

No destino carcerário dessas duas mulheres está a figura do advogado Billy Flynn (Richard Gere), especialista em fabricar eventos de mídia, manipular imprensa e judiciário e absorver mulheres culpadas por assassinatos, tudo isso em troca de “um pouco de amor”, como diz a canção, e mais U$ 5,000.

“Chicago” é isso: em termos de texto fílmico, tem-se uma história sórdida, recheada de trivialidades; em termos de gênero, nada acrescenta. Pelo contrário, aos musicais clássicos suprime os grandes astros e estrelas que dançavam maravilhosamente e alegravam o público, pois somente o talento de Renée Zellwegger e a beleza incomparável de Catherine Zeta-Jones salvam o filme de uma hecatombe nuclear.


Jorge Coimbra - 03.04.2003.