Cidade de Deus e o Oscar 2004

Ainda não havíamos esquecido totalmente a triste decepção que amargamos quando tivemos filmes como “O Quatrilho”, “Central do Brasil” e “O que é isso, companheiro?”, que haviam sido indicados ao Oscar em anos passados e que suscitaram em nós uma euforia bastante parecida com o orgulho patriótico que sentimos por termos a seleção de futebol penta campeã do mundo, a música entre as melhores do planeta, uma literatura invejável e tantas outras marcas inigualáveis, mas que, ao fim e ao cabo, não lograram receber a merecida premiação máxima do cinema americano.

Acho que nunca engolimos muito bem aquela história de que um filme chamado “A Excêntrica Família de Antônia” e outro “A Vida é Bela” tenham frustrado o sonho de tantos milhões de brasileiros que torciam apaixonadamente pelo definitivo reconhecimento da Academia hollywoodiana.

Mas, como bons brasileiros que somos, a vida sempre continua. E continuou em sua mais absoluta mesmice (inclusive cinematográfica) até que novamente a Academia de Hollywood, como que ansiosa por redimir-se após tantos desacertos, desejasse fazer um acerto de contas com o cinema brasileiro, acenou-nos com a indicação de “Cidade de Deus” para nada menos do que quatro Oscars em categorias importantes: melhor diretor, melhor fotografia, melhor montagem e melhor roteiro adaptado.

As indicações da Academia nos surpreenderam! Não que antes não tenhamos achado “Cidade de Deus” um excelente filme, mas é que - sabe? - estamos tão acostumados com esta realidade miserável de violência que o filme tão bem retrata, que, cá pra nós, será que existe alguma estética em retratar isto?

Fizemo-nos esta pergunta meio que em voz baixa, primeiro, por um certo sentimento de vergonha em não saber muito bem a resposta; depois, também porque pensamos que se a Academia disse que o filme é bom, é porque ele deve ser mesmo, pois se não o fosse como tê-lo-iam indicado a tantos Oscars?!

Foi assim que resolvemos perdoar a Academia por nos ter preterido tantas vezes, logo nós que somos os melhores em quase tudo. Perdoamos, na certeza de que as indicações de “Cidade de Deus” para tantas categorias importantes só poderia significar uma coisa: finalmente chegou o momento em que o cinema brasileiro seria definitivamente reconhecido pelo maior centro cinematográfico do mundo, pois é lógico que com tantas indicações ao menos um Oscar íamos conquistar.

E assim foram várias semanas de muitas expectativas, organizamos torcidas, fizemos bolões e apostas pela Internet, a mídia nos bombardeando diariamente com informações e curiosidades sobre a história do Oscar, os programas de auditórios da TV (essas porcarias!) entrevistando pseudo-entendedores de cinema, enfim: uma euforia absolutamente tola e sem sentido.

Com todo esse ufanismo desproporcional, esquecemos de alguns detalhes cruéis: a premiação do Oscar é um poderoso evento de mídia que a indústria americana criou para promover seu cinema perante o mundo inteiro; a academia não está preocupada em promover cinemas estrangeiros, nem mesmo o terceiro-mundista; a contemplação de indicações de alguns poucos filmes alienígenas só serve para dar um arremedo de legitimidade e universalismo ao evento, afinal o “resto do mundo” é o mercado onde irão circular seus filmes; a academia hollywoodiana não tem compromisso algum com a estética cinematográfica, prova maior disso é que a maioria dos grandes diretores de cinema europeu nunca foi premiada.

Além disso, quase também é mais um detalhe o fato de quem o Oscar não é e nem pode ser o selo de qualidade de um filme. Precisamos vencer a mentalidade de que os nossos filmes precisam ser reconhecidos por Hollywood para que tenham valor.

“Cidades de Deus” foi aplaudido de pé por oito minutos na sua exibição de estréia em Cannes, recebeu outros tantos prêmios pelo mundo afora e, sem dúvida, está entre os melhores filmes já feitos na história do cinema brasileiro. Assim, pois, ganhar ou não o Oscar em nada o torna menor.

Na verdade, é preciso que aprendamos a valorizar o nosso cinema tal como sabemos fazê-lo com nossa música ou nosso futebol, não apenas torcendo para que ganhem o Oscar hollywoodiano, mas principalmente freqüentando as salas onde quer que esteja sendo exibido um filme nacional.

A propósito, você já assistiu ao filme “Cidade de Deus”?


Jorge Coimbra
BSB, 01/03/2004.