Códigos de Guerra (Windtalkers)


Está em cartaz o filme “Códigos de Guerra”, do diretor chinês John Woo, que nos acostumou a um cinema estilizado e próprio, mas que em seu novo filme não inova, decepciona e resvala para o terreno da mesmice.

O argumento do filme até que é interessante! Durante a Segunda Guerra mundial, a marinha americana recruta índios navajos para o corpo de fuzileiros navais, cuja língua nativa, por sua riqueza vocabular, propiciaria uma comunicação codificada entre os vários comandos, evitando assim a interceptação das informações pelos inimigos japoneses.

O elemento antitético do argumento é o dilema moral vivido pelos soldados americanos, que teriam por missão proteger a vida dos seus companheiros soldados navajos, mas que, ante o iminente perigo de captura destes, deveriam matá-los a fim de proteger o código.

Esta idéia, indiscutivelmente plausível, desmorona e cai por terra em função de um roteiro monótono, infeliz e abarrotado de clichês, do tipo “soldado-com-saudades-da-amada-e-dos-momentos-felizes” ou “soldado-que-sonha-após-a-guerra-ter-seu-ranchinho-e-criar-ovelhas”.

Sem inovações, o filme se prolonga por mais de duas horas de muitas explosões, pernas que se perdem pelo ar esfumaçado, além de muitos choros e ranger de dentes, sem falar na inverossímil bravura do Sargento Enders (Nicolas Cage), que corre sem parar de um lado para o outro do campo de batalha sem sofrer a desdita de uma bala perdida sequer.

Aliás, Nicolas Cage, que dá vida à personagem de Enders - sargento casmurro e neurótico de guerra, está mais mau humorado do que nunca e passa os mais de 120 minutos do filme entre resmungando e destilando indelicadezas (sorri por dois raros momentos no filme).

Para não se dizer que não falei de flores, destaque especial para as tomadas em “travelling”* dos campos de batalha e para a seqüência inicial da borboleta que pousa sobre o mar.

Mas o fato é que, para quem conheceu o estilo inovador de John Woo, que se notabilizou pelo uso cadenciado da câmera lenta alternada à fragmentação de planos, que fizeram de seus filmes um espetáculo coreográfico delirante e próprio, certamente sentirá uma inevitável frustração ante sua constante preocupação com a credibilidade das cenas, o que projeta “Códigos de Guerra” na vala comum dos filmes que passam.


Jorge Coimbra, Macapá (AP), 09 de dezembro de 2002.


* travelling: tomada de câmera caracterizada pelo seu afastamento lateral ou longitudinal, abordando um ponto específico ou se prolongando no espaço.