Desmundo


Sem maiores alardes, “Desmundo” chega às telas do cinema brasileiro e nos surpreende, positivamente, com sua técnica consistente e sua estética própria.

Dirigido por Alain Fresnot, o filme é adaptação para a tela do romance homônimo de Ana Miranda, com roteiro de Sabina Anzuategui.

“Desmundo” tem como ponto de partida narrativo uma carta do Pe Manuel da Nóbrega ao rei de Portugal, na qual solicita ao monarca que mande à nova terra moças órfãs dos conventos de Portugal, a fim de se casarem e constituírem família com os homens que aqui estavam, evitando, assim, que estes vivessem “em pecado”.

Tal carta, que efetivamente constitui documento histórico, é o argumento inaugural do filme que, contextualizando-se no Brasil colonial de 1570, narra a história de um grupo de adolescentes órfãs enviadas de Portugal, entre as quais está a figura de Oribela (vivida por Simone Spoladore).

Oribela, afeita à vida reclusa de um convento, depara-se aqui com um mundo absolutamente inóspito, ímpio, de estranhos costumes e repleto de adversidades e opressões ostensivas.

Diante disso, Oribela envida todos os esforços para retornar ao seu mundo (Portugal), mas acaba tendo que se casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), um imoral e repugnante Senhor de Engenho, que cultiva relações incestuosas e espúrias.

O filme de Alain Fresnot possui um alto nível de técnica cinematográfica, como se há de notar pela formidável plasticidade fotográfica e pela insinuante trilha sonora (direção de música por John Neschling).

Além disso, recria com precisão a atmosfera circunspeta e exótica do universo colonial brasileiro, para o que convergem o conflito cultural entre tribos indígenas e colonizadores portugueses, a sisuda e indiscreta vigilância eclesiástica e a inexprimível sensação do medo de uma existência sob um mundo primitivo e melancólico.

Há a considerar o interessante aspecto de que, longe dos holofotes da “História Oficial”, é possível contar uma outra História do Brasil: mais cotidiana, mais feminina e mais pungente, na qual se inscreve o prefácio da opressão sobre a mulher num país que acabava de nascer.

Como disse acima, “Desmundo” chegou quase anônimo nas telas do nosso cinema nacional e abdicou - por vontade própria ou não, do ritual mercadológico, mas, talvez até por isso, possua uma certa pureza artística temperada a um inegável charme discreto.


Jorge Coimbra
Brasília (DF), 20.06.2003.