Jorge Coimbra aceitou o convite do nosso site para escrever sobre cinema, uma paixão antiga que lhe inspira estudos e comove sua percepção estética. Astuto observador da arte cinematográfica. Coimbra coleciona clássicos, acompanha lançamentos, já escreveu para colunas especializadas em jornais locais e garimpa obras literárias a respeito do tema.
Com a generosidade de quem vê na tela a amplitude da criatividade artística, Jorge Coimbra estréia como colaborador semanal aqui neste espaço. Que seja bem vindo e que todos nós possamos entrar em contato com suas impressões.

Estrada para Perdição (Road to Perdition)

O novo filme de Sam Mendes “Estrada para Perdição” é o primeiro após o inusitado e premiadíssimo “Beleza Americana”, o que já induz o público de cinema a uma grande expectativa, pois não é sempre que um novel diretor recebe tantas premiações em um de seus primeiros filmes.

A resposta do diretor às expectativas do público é um filme que desafia a inventividade eventualmente possível por trás do chamado lugar-comum do cinema, em que Mendes parece trilhar um perigoso caminho que medeia a originalidade narrativa e o glamoroso e impalatável pastiche cinematográfico.

O ambiente fílmico é caracterizado por uma persistente paisagem cinzenta e depressiva do inverno de Chicago de 1930, e o enredo desenvolve-se a partir do relacionamento de um respeitado e temido gangster (Paul Newman) e seu fiel protegido Michael Sullivan (Tom Hanks), sob os olhares ciumentos e rancorosos de Connor (Jude Law), como na cena em que o velho gangster e Michael, ao piano e em duas mãos (não quatro!), tocam uma bela e melancólica canção. A cena revela com sutileza e talento a perfeita afinidade e harmonia entre ambos, coroada pela brilhante atuação de Newman.

Mas um acontecimento desencadeado por Connor (Jude Law) subverte a trama e confere ao enredo maior dramaticidade, redimensionando o papel das personagens e revelando uma história que, apesar de um tanto simplória, permite ao diretor conduzir uma reflexão acerca da família, do relacionamento entre pais e filhos, dos seus conflitos e valores e da importância do diálogo.

Além disso, é inevitável entrever no texto fílmico um certo discurso escatológico e uma constante inquietação espiritual, notadamente presente nas falas sobre céu e inferno, como também nas imagens e quadros em PdC (Profundidade de Campo)*, em algumas das seqüências mais interessantes do filme.

O elenco do filme é de primeira grandeza e, pó si só, já constitui uma façanha do diretor ter conseguido trazer de volta à telona o velho e inigualável Paul Newman, que empresta ao personagem uma dolorosa vivência pessoal (teve um filho morto por overdose, no fim da década de 70).

Tom Hanks, que nos acostumou a papéis mais simpáticos e politicamente corretos, mesmo em “O resgate do soldado Ryan”, em que já empunhava uma metralhadora e algumas granadas, pela primeira vez ostenta uma face violenta e sombria, dando vida à personagem de Sullivan.

Não espere, todavia, um filme de gangsters no velho estilo do gênero. “Estrada para Perdição” pode ser caracterizado como um filme com grande teor psicodramático, o que é reforçado pela pouca luminosidade dos planos e pela renitente obscuridade da maioria das cenas, sob uma fotografia de excelente qualidade técnica, que, aliada à gravidade do compasso sonoro do filme, faz-nos pensar o quão lúgubre e sombria pode ser a alma humana.

No entanto, a mesma trilha que conduz à Perdição (um pequeno lugarejo) parece também ser o único caminho, ainda que tormentoso, que pode (quem sabe?) conduzir Michael à redenção, pelo menos é o que se pode entrever pela alteração de planos e de luminosidade a partir de certo momento do filme, em que a paisagem taciturna da neve e lúgubre da luz tênue da casa cede passo a tomadas mais límpidas e incandescentes.

Creio que vale a pena assistir!


Jorge Coimbra