Femme Fatale

“Femme Fatale” é um hipnótico e sofisticado jogo de signos, imagens e sensações, que rende homenagens ao cinema e seduz o espectador.

O seu diretor, Brian de Palma, merecidamente notabilizado por filmes como “Dublê de corpo” (1984) e “Os intocáveis” (1987), que se tornaram inesquecíveis para o grande público da sétima arte, vem de uma seqüência nada elogiosa de filmes desinteressantes e nada recomendáveis.

“Femme Fatale”, contudo e felizmente, parece ser um filme mais condizente com a inventividade e a habilidade narrativa próprias do cineasta, pois resultou em “thriller” delirante e sensual, repleto de seqüências que remontam a cenas memoriais do próprio cinema.

A trama tem início com um ardiloso roubo de jóias em plena noite de gala do festival de Cannes, protagonizado por uma organização criminosa altamente habilidosa, da qual faz parte Laura Ars (Rebecca Romijn-Stamos).

Algo inesperado acontece e subverte as expectativas da organização, que é obrigada a recorrer a uma espécie de plano “B” para levar a efeito o roubo, mas é surpreendida pela traição de Laura, que acaba a primeira seqüência do filme exibindo uma genialidade delinqüente.

Aliás, Brian de Palma, já na seqüência inicial do filme, mostra toda sua obsessão pelo cinema, ao utilizar o zoom para obter um enquadramento contínuo e dialógico entre Laura Ash (Rebecca Romijh-Stamos) e o televisor a que assiste e que exibe “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder (1944), no qual Bárbara Stanwyck confessa a Fred MacMurray que “tem podre até o coração”.

A cena inicial do quarto de hotel parece servir de inspiração para Laura Ash, a “femme fatale”, cuja astúcia e poder de sedução são as únicas (mas nada desprezíveis!) armas de que dispõe esta “mulher fatal” para realizar o roubo talvez mais eletrizante, minucioso e cadenciado de toda a história do cinema, ao ritmo contagiante e convulsivo de uma versão, digamos, irreverente e exaltada do “Bolero de Ravel”.

A seqüência do roubo das jóias, além de outras ao longo do filme, é uma verdadeira experimentação de linguagem cinematográfica, em que Brian de Palma privilegia o uso e o recurso de câmera, em tomadas e enquadramentos tão perfeitos que, inevitavelmente, relembram Alfred Hitchcock.

Interessante observar, também, a ausência de diálogos ou textos falados em diversas seqüências, o que denota, por um lado, o extremismo da concepção de Brian de Palma; e por outro, deixa entrever talvez uma reverência ao cinema mudo.

“Femme Fatale” é um “thriller” estilizado e surpreendente, e sua protagonista, uma espécie de síntese emblemática entre a Sharon Stone de “Basic Instinct” e uma replicante de “Blade Runner - Caçador de Andróides”, capaz de um “strip-tease” mais convincente do que o de Demi Moore em “Strip-tease”.

Evidentemente que o filme tem suas imperfeições, que podem ser tributadas a certos deslizes do roteiro, ao forçar um encadeamento ilógico da cena da banheira transbordando com o mergulho mortal de Laura no Rio Sena; ou à renitente utilização de clichês; ou ainda à atuação pouco marcante de Antonio Banderas (me pareceu embasbacado pela replicante).

Ainda assim, não há dúvida de que o filme empolga e entusiasma com cenas dignas da sétima arte, como quando inicia uma digressão fílmica para prenunciar o acontecimento trágico envolvendo um caminhão de cargas, cuja caracterização recria uma atmosfera de ansiedade, tensão e angústia, já vistas e sentidas em “Os intocáveis”, na seqüência do confronto de Elliot Ness e seus homens com a gangue de Al Capone nas escadarias de um porto (homenagem ao confronto dos marinheiros nas escadarias de Odessa em “Encouraçado Potenkim”).

Em “Os intocáveis”, a tensão advém do deslizar de um carrinho de bebê escadaria baixo, sob a crueldade de uma câmera lenta; em “Femme Fatale”, está no contra-jogo de planos, que exibe o caminhão em velocidade, figurantes dispersos em suas impotências e um “closet” de pernas a significar uma perseguição.

Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um oportuno resgate da melhor tradição do suspense, gênero que De Palma tributou ao cinema.


Jorge Coimbra. 19.02.2003.