Gangues de Nova York


Martin Scorsese há décadas alimentava o sonho de dirigir um filme que mostrasse aos próprios americanos e ao mundo a verdadeira origem de Nova York e da nação americana.

Aliás, toda a filmografia de Scorsese, depois de assistirmos ao “Gangs the New York”, pode parecer um requintado e bem elaborado prelúdio ao que o diretor pretendia mostrar em seu novo filme.

Contudo, algo parece ter dado errado: o diretor aguardou tempo demais para poder reunir as condições ideais de produção, atravessou décadas trabalhando em outros projetos, a fim de criar as bases para a realização de seu sonho de diretor, mas ao fim acabou tendo por “parceira” a Miramax e seus ambiciosos chefes, os irmãos Weinstein, que por pouco não comprometeram totalmente a obra cinematográfica de Scorsese.

“Gangues de Nova York” mostra a história do nascimento da cidade sob a violência e a barbárie das gangues locais, compostas, por um lado, de “nativos” - que, a despeito de haverem nascido na América, eram filhos de imigrantes ingleses, alemães e gauleses; e, por outro, de imigrantes católicos oriundos da Irlanda, em meados do século XIX.

Naquele contexto, o contingente migratório concentrava-se nas periferias e guetos da cidade, entre os quais havia o “Five Points”, uma encruzilhada de cinco ruas, cujo domínio era disputado ferozmente por gangues as mais diversas, que se enfrentavam a foices, machados, cutelos, porretes e até dentadas, para medir a superioridade e definir a liderança política do local.

A seqüência inicial do filme é uma cena demasiadamente violenta e barbaresca, em que se confrontam as gangues dos “Dead rabbits” (Coelhos mortos), liderada pelo Pastor Vallon (Liam Neeson), e dos “Nativistas”, sob o comando de Bill ‘the Butcher’ (Daniel Day-Lewis), ao som do U2 e sob uma câmera ora lenta, ora fragmentária, que inevitavelmente lembra a melancólica batalha do épico “Ran”, de Akira Kurosawa.

No confronto inicial, Amsterdam (Leonardo DiCaprio), ainda menino, presencia o assassinato de seu pai, o Pastor Vallon, pelo líder rival Bill (Daniel Day-Lewis, primoroso e inigualável como nunca), que o manda para o reformatório, onde é mantido preso e alimenta o desejo de vingar-se do homem que assassinou o seu pai.

Esta historinha básica e trivial: menino que presencia o assassinato do pai por um rival e cresce esperando o momento de vingar-se, é o primeiro grande problema do filme, pois além de insossa, já foi contada um milhão de vezes pelo cinema e constitui exatamente a ingerência da Miramax no roteiro.

A outra “participação” da Miramax no filme é o romance estéril de Amsterdam (DiCaprio) e Jenny Everdeanne (Cameron Diaz) que, além de artificial, não convence nem empolga ninguém, o que nos leva ao segundo grande problema do filme.

Na concepção de Scorsese, a história do surgimento da cidade de Nova York é o aspecto essencial do texto fílmico, que, aí sim, teria como pano de fundo um romance dramático, mas a perspectiva mercadológica da Miramax, assim como das demais grandes produtoras cinematográficas, nunca deve ser subestimada, pois foi a responsável pela inversão de enfoque, relegando o conteúdo histórico do roteiro a pano de fundo e guindando a historinha básica à condição de eixo central do filme.

Tais inserções no roteiro suscitaram desentendimento público entre Scorsese e Harvey Weinstein (Miramax), fato que foi agravado pelo estouro orçamentário do filme, que, inicialmente estimado em U$ 73 milhões, alcançou a cifra de cerca de U$ 100 milhões.

Para agravar a crise em torno do lançamento do filme, a montagem, dirigida por Thelma Shoonmaker, levou cerca de um ano para chegar a versão final, pois a versão anterior apresentada pelo diretor foi rejeitada pela Miramax, por ser ainda mais longa.

O resultado desta “queda-de-braço” entre diretor e produção é um filme paradoxal, em que a caracterização diegética é perfeita e inexpugnável, a exemplo do figurino e da reconstrução ambiental do filme (rodado nos estúdios Cinecittá em Roma), mas que acabou solapado por um roteiro indigno e decepcionante, forjado pela lógica capitalista de Hollywood.

As inserções mercadológicas patrocinadas pela Miramax quase transformaram o filme em uma espécie de horror espetaculoso e depressivo, pois as reiteradas e chocantes cenas de violência que deveriam constituir uma experiência estética do filme, segundo o conceito e a maestria de Scorsese, acabam servindo de mero ingrediente plástico destituído de sentido próprio.

A genialidade de Scorsese, já conhecida e demonstrada por filmes como “Táxi Driver”, “O Touro Indomável”, “Os Bons Companheiros”, “O Cabo do Medo” e a “Época da inocência”, foi posta à prova justamente em seu maior e mais ambicioso projeto cinematográfico, mas todas as adversidades por ele enfrentadas para fazer “Gangues de Nova York” serviram para reafirmar a sua condição de maior cineasta americano da atualidade.

Jorge Coimbra. 22.03.2003.