HULK


Não se pode falar ou escrever sobre Hulk ou qualquer outro super-herói, sem necessariamente mencionar uma mágica cumplicidade que há entre o cinema e as personagens dos quadrinhos.

É que o universo dos gibis precedeu e orientou o das telonas, no sentido de captar o espaço do imaginário infanto-juvenil e perpetuá-lo em seus super-heróis, monstros e vilões.

Aliás, não posso deixar de lembrar a época de nossa infância, nos anos 70, em que a fila de espera na porta do cinema era o ambiente propício para a troca de revistas em quadrinhos dos nossos super-heróis favoritos.

O cinema - é bem verdade, andou violando o código desta cumplicidade em alguns momentos, pois diversas vezes abdicou de cultivar na tela os valores (ou contra-valores?) culturais dos quadrinhos e dos seus super-heróis, em nome da sua vocação industrial, tecnocrática e mercadológica.

"Hulk", o filme, é adaptação ao cinema da história em quadrinhos criada por Stan Lee e Jack Kirby, personagem que já havia sido adaptada antes para a TV em desenho animado e em série.

Dirigido pelo versátil Ang Lee ("Razão e sensibilidade", "O tigre e o dragão" e "A tempestade de neve"), "Hulk" teve um custo de cerca de U$ 137 milhões e vem arrecadando bastante desde sua estréia (U$ 63 milhões nos EUA).

Nos anos 60, David Banner (enquanto novo, Paul Kersey; mais velho, Nick Nolte), cientista a serviço do alto comando militar, pesquisa fórmula para impedir que soldados feridos morram em campo de batalha.

Impedido de utilizar humanos em sua pesquisa, o cientista testa em si mesmo o experimento, adquirindo uma mutação orgânica que é comunicada geneticamente ao filho.

Bruce Banner (Eric Bana, de "Falcão Negro em perigo"), filho de David Banner e também cientista, sofre acidente em laboratório e é exposto a uma grande quantidade de raios gama que, em vez de matá-lo, reativam os fatores genéticos mutantes, transformando-o em um monstro verde.

Tecnicamente, "Hulk" é conduzido com maestria e deixa nada a desejar para os medalhões do gênero.

Tem trilha sonora do "expert" Danny Elfman, efeitos especiais da inacreditável IML (Industrial Light and Magic) e construção sonora de Gary Rydstrom (considerado atualmente o mais conceituado "sound designer" de Hollywood).

Além disso, faço um especial destaque para uma inovação na sucessão de planos: a edição do filme criou um recorte quadrinhesco das cenas, pelo qual as cenas se recortam e se entrecortam como se fossem páginas de quadrinhos.

A direção de Ang Lee preferiu privilegiar o universo psico-dramático da personagem, buscando enfatizar o seu conflito com o pai, pelo qual Bruce Banner é mostrado sob um enfoque maniqueísta e freudiano.

A exemplo do "Batman" de Tim Burtom, a atmosfera de "Hulk" é depressiva e melancólica, a demonstrar a crueldade da existência na solidão e no ódio que advêm da sua condição mutante.

Aliás, este parece ser o problema maior do filme: a densidade psicológica emprestada à personagem não admite uma interação dialógica com o seu lado humano e acaba por esconder o Hulk do imaginário infantil, substituindo-o por um monstro atabalhoado e infeliz.

Jorge Coimbra.
Brasília (DF), 21.07.2003.