Identidade
(Identity)

Imagine ver-se numa noite de chuva tempestuosa e interminável, em plena auto-estrada deserta e mal iluminada, onde os postes elétricos desabam, a pista de rolamento inunda-se e acidentes brutais e inesperados acontecem...

Esse episódio fortuito, estranhamente, acaba reunindo pessoas desconhecidas num mesmo local, um motel de beira de estrada, onde passam a hospedar-se enquanto aguardam a tempestade passar.

Mas a súbita e inexplicável morte de um dos hóspedes fomenta a tensão e o pavor no ambiente, colocando todos os demais como suspeitos e desencadeando a narrativa deste thriller convencional e nervoso.

Com o passar das horas, noite adentro, mais hóspedes vão sendo assassinados, sem que seja possível elucidar a identidade do serial killer.

Caro leitor, já chega! Não vou mais engana-lo: não espere de “Identidade” um suspense hitchcockiano, nem tampouco uma narrativa estilizada à la Brian de Palma.

Nem só de uma boa história vive o cinema. Aliás, para a sétima arte, mais importante do que a própria história é a forma como ela será contada.

Em cinema, no mais das vezes uma história banal erguida sobre um roteiro inteligente rende muito mais do que uma bela história estrangulada por um roteiro medíocre.

Dito isso, fica fácil explicar por que “Identidade”, cuja história parece ter-se inspirado em “O caso dos dez negrinhos” (de Agatha Cristhie), apesar da história rica em mistério e suspense, acaba repetindo a fórmula hollywoodiana convencional e burocrática, com direito a pistas falsas, pegadinhas, “cascas de banana” e outras molecagens.

O filme evoca (na verdade, penso que se apropria indevidamente) de passagens clássicas de “Psicose” (Hitchcock, 1960), em que Janet Leigh, por força de uma tempestade, é levada a hospedar-se no rotundo Bates Motel, onde conhece o psicopata Norman Bates (Anthony Perkins).

John Cusack está invariavelmente muito bem no papel do motorista ex-policial que cumpre discretamente no filme um papel de condutor das investigações.

O diretor, James Mangold (Cop Land e Garota Interrompida), deu demasiada atenção para os efeitos visuais do filme, que até estão bons, mas acabou descuidando-se da trama, bem como de uma melhor caracterização psicológica dos personagens. O resultado é um filme banal e claudicante.


Jorge Coimbra
Brasília, 19/10/2003.