Sobre Meninos e Lobos


Há filmes que cumprem tão somente a singela função de nos entreter e divertir por cerca de hora e meia ou duas, tempo em que nós, espectadores, somos arrebatados por meio dos sentidos para viver uma experiência que, apesar de ilusória, efetivamente mobiliza em nós determinadas espécies de sensações, ainda que primárias.

Em tal categoria de filmes, freqüentemente ocorre que ao término da exibição sequer lembramos direito o que nele nos divertiu ou entreteve. Voltamos pra casa um pouco aliviados e um ano depois já nem lembraremos de tê-lo assistido.

Outros filmes há, entretanto, que fomentam em nós emoções verdadeiras, instigando-nos a uma reflexão sobre a nossa condição humana e seus paradoxos, desnudando através dos seus personagens os seres humanos imperfeitos e brutais que somos.

Precisamente nessa última categoria está inserido “Sobre Meninos e Lobos”, um filme que não se presta a puro divertimento ou mero entretenimento, mas sobretudo intenta nos submeter a uma reflexão profunda e verdadeira sobre o caráter abominável da pedofilia e do abuso sexual praticado contra crianças.

Dirigido por Clint Eastwood, o filme em suas primeiras seqüências mostra três garotos, Dave, Jimmy e Sean, brincando de beisebol na rua, quando a bola cai pelo bueiro e se perde. Os três, então, tentando arranjar outro divertimento, encontram uma calçada com cimento fresco e decidem escrever seus nomes, os quais ficariam ali grafados para sempre.

Mas subitamente um carro preto pára e dois sujeitos, dizendo-se policiais, abordam os meninos, repreendendo-os pelo dano causado na calçada. Mostrando-se irritados, os supostos policiais indagam dos garotos seus endereços. Jimmy e Sean respondem que moram ali mesmo naquela rua, mas Dave mora em outra. Os sujeitos então obrigam Dave a entrar no carro e fazem crer que o levam para entregá-lo à mãe, mas em verdade o seqüestram para submetê-lo a toda sorte de abuso e violência.

Jimmy e Sean vêem o estranho carro partindo rua afora e o olhar de profundo medo de Dave, mas nada conseguem fazer para impedir o seqüestro.

Quatro dias depois, Dave consegue fugir do cativeiro e retornar para casa, mas já não é o mesmo menino, sua vida e sua inocência se perderam inteiramente, deixando em lugar o medo, a tristeza e a solidão, marcas estas que vão agora seguí-lo pela vida afora.

Aliás, é sobre a vida do adulto Dave, bem como de Jimmy e Sean, que Clint Eastwood se debruça para denunciar as feridas indeléveis causada pelo abuso impingido ao garoto. Clint avança, então, o contexto temporal da narrativa para perscrutar, sob a lente fílmica, como será a vida adulta daqueles inocentes meninos que cresceram num modesto bairro de Boston.

Agora Dave, Jimmy e Sean são adultos (vividos por Tim Robbins, Sean Penn e Kevin Bacon, respectivamente). Os dois primeiros continuam a morar no mesmo bairro de Boston; apenas Sean, agora policial, mudou de endereço, mas voltam a encontrar-se por força de uma tragédia: a filha de Jimmy foi assassinada em circunstâncias brutais cuja autoria parece apontar para Dave, cabendo a Sean (Kevin Bacon) e seu parceiro Whitey (Laurence Fishburne) investigar o caso.

A elucidação do assassinato, talvez por erro de condimentação, talvez por concessão proposital de Clint, acaba obtendo uma abordagem demasiadamente enfática do roteiro, o que conduz o filme a uma digressão pelo gênero policial. Assim, um olhar desavisado sobre o filme pode precipitar uma leitura sob o enfoque policial, o que, seguramente, nem é a intenção de Clint, nem é de todo verdadeiro.

Clint Eastwood é o tipo de diretor que faz questão de dispensar as perfumarias dos efeitos especiais e demais coisas do gênero para que prevaleça a direção dramatúrgica dos atores e o perfeito posicionamento de câmeras.

No caso de “Sobre Meninos e Lobos”, a técnica estilizada de Clint tem um objetivo certo: submeter os dramas humanos a uma cisão, esmiuçá-los, prescrutrá-los profunda e demoradamente, para depois expandi-los até o limite suportável.

Clint Eastwood deseja que tomemos consciência do caráter brutal, deplorável e anti-humano da pedofilia e da violência sexual contra a criança, mostrando que tais abusos são apropriações grotescas e abomináveis que desviam o curso de uma existência e submetem suas vítimas a uma sub-existência de medo, de solidão e de irreversível sofrimento.

Para o diretor, a violência e o abuso sexual de crianças imprimem algo tão indelével e irreversível em suas vidas quanto a grafia sobre o cimento fresco da calçada que permanecerá ali para sempre, como uma rubrica do predador pedófilo sobre a consciência de sua vítima.

Portanto, muito além de um filme policial que busca desvendar um assassinato, “Sobre Meninos e Lobos” é um filme sobre a fragilidade e a brutalidade humanas, sobre a inocência e o ignóbil e sobre as contradições inerentes à condição humana.

Clint Eastwood, que, enquanto diretor, inicialmente fez filmes de um gênero essencialmente violento e marcadamente machista como é o Western, já havia provado toda a sua sensibilidade estética por filmes como “Bird” e “As pontes de Madison”, tendo sido definitivamente consagrado pelo premiadíssimo “Os Imperdoáveis”, talvez sua obra-prima. Contudo, ao dirigir “Sobre Meninos e Lobos” realizou o que parecia ser impossível: acrescentar uma nova obra-prima à sua já excelente filmografia. É claro que isto também não seria possível sem que houvesse lançado mão de um elenco de primeira grandeza.


Jorge Coimbra
Brasília, 13 de janeiro de 2004.