O chamado

O poder das imagens e sua lesividade, já diversas vezes abordado pelo cinema em filmes como “Poltergeist”, volta a ser objeto de digressão, através de “O chamado”.

“The ring”, título original do filme dirigido por Gore Verbinsk (A Mexicana), é uma refilmagem autorizada do cult japonês “Ringu”(do diretor Hideo Nakata), que por sua vez baseou-se no romance de Kôji Suzuki.

A trama se baseia em uma lenda corrente na contemporânea Seattle, acerca da existência de uma fita VHS anônima, cujas imagens provocam, inexoravelmente, a morte de quem as assiste.

O conteúdo da fita maldita é um filme amador com imagens incongruentes e sinistras, que acaba sendo assistido por diversas pessoas, levando-as a mortes inexplicáveis.

Rachel Keller (Naomi Watts, de “Cidade dos Sonhos”), jornalista, teve sua sobrinha morta sob circunstâncias misteriosas, sete dias após ter assistido à fita maldita, fato que motiva uma investigação por parte da repórter, que acaba ela própria assistindo a tal fita.

A partir daí, o filme desenvolve-se numa teia de acontecimentos misteriosos e revelações, cujo desate é ameaçado pelo tempo que resta de vida para a protagonista.

O filme não traz nada de novo. Tenta repetir, sem sucesso, o ritmo marcante de “O sexto sentido”, mas só consegue repisar dezenas de clichês já engessados pelo gênero terror e acaba capitulado pelo sistema do inequívoco susto fácil e imediato.

É bem verdade que, neste propósito, o filme vai bem: suscita na platéia gritos de horror repentinos e inesperados, mas, convenhamos, a utilização de cenas e imagens aberrantes e inusitadas é um truque demasiadamente banal para um gênero que já produziu filmes como “Drácula de Bram Stoker”, “O exorcista”, “Poltergeist”, além de tantos outros igualmente interessantes.

Contudo, vale registrar a boa presença de Naomi Watts no delicado papel que lhe coube, protagonizar um filme de horror. Apesar de esta não ser uma tarefa das mais gratas, desempenhou-a com habilidade e surpreendente talento, contribuindo, assim, para uma certa “credibilidade” do filme.

Jorge Coimbra. 09.03.2003.