Prenda-me se for capaz

Steven Spielberg, após uma longa e exitosa digressão pelo cinema dramático, que o conduziu ao reconhecimento definitivo, surpreende agora com “Prenda-me se for capaz” - filme despretensioso e divertido que, além disso, contém dissertações auto-biográficas.

O filme conta a história verídica de Frank Abagnale Jr., um dos maiores falsários da América, que, já aos 16 anos, fez-se passar por co-piloto de uma grande empresa de aviação norte-americana, médico de um importante hospital e advogado, além de ter enganado o próprio FBI e falsificado um volume de cerca de quatro milhões de dólares em cheques de diversos bancos.

O protagonista é bem vivenciado por Leonardo DiCaprio, o mais recente “queridinho” de Hollywood, que, apesar de não ser lá tão talentoso, faz bem o papel de delinqüente juvenil simpático, contracenando com um Tom Hanks bem mais maduro para o cinema.

Mas as presenças qualificadas no elenco ficam por conta de Christopher Walken, em belíssima atuação, o que lhe valeu a indicação para o Oscar 2003 como melhor ator coadjuvante, além da sempre primorosa presença de Martin Sheen, que, apesar da participação secundária no filme (faz o sogro luterano de Abagnale), em momento algum diligencia sua performance.

“Prenda-me se for capaz” não é muito mais do que um filme descontraído e simples, desnecessariamente prolongado e perigosamente cínico.

Steven Spielberg, com sua habilidade única de maior diretor hollywoodiano, transforma o golpista e falsário Frank Abagnale Jr. em um carismático gênio de fraudes e ostentações. É tanto, que o espectador não resiste, torce por ele, ri de suas picaretagens e se compraz com suas idiossincrasias.

O filme possui excelente fotografia, dirigida por Janusz Kaminski, em uma de suas melhores performances, bem como exibe a formidável marca sonora de John Willians, mas surpreende negativamente à medida que Spielberg sempre nos acostumou com seus roteiros densos e bem delineados, em tudo diversos do que se vê nesta adaptação ora cômica, ora excessivamente melodramática e claudicante.


Jorge Coimbra - 24.02.2003.