O Senhor dos Anéis - As Duas Torres


O cinema é, inegavelmente, a arte onde a ficção se realiza plenamente, pois o filme - seja ele científico, documental ou épico - é a construção fictícia perfeita, que recria fictamente a realidade ou “realiza” a própria ficção.

Assim, se um filme cujo enredo se baseia em fatos verídicos possui estatuto de ficção, pois a representação fílmica nada mais é senão a reconstrução “significante” de um episódio real “significado”, então o filme que tem por inspiração obra literária de ficção é duplamente ficcional, pois ergue à condição de realidade (ilusória) o que por si é fictício.

Tais considerações se fazem necessárias para que se possa refutar o entendimento, segundo o qual cinema e filmes devem servir para retratar o real.

Veja, ainda que um cineasta se proponha a fazer um filme que seja fiel a determinados fatos históricos, a verdade é que ele nunca poderá fugir da utilização de um determinado discurso ideologizado para narrar referido fato, nem mesmo poderá abrir mão de determinados ingredientes ficcionais que o cinema dispõe para dar âncora de “realidade” ao seu discurso.

Nesse contexto, o filme de Peter Jackson “O Senhor do Anéis”, episódio “As Duas Torres”, baseado na trilogia de mesmo nome do escrito inglês J. R. R. Tolkien, insere-se como uma obra cinematográfica cuja inspiração é o universo fictício criado pela literatura de Tolkien, na qual referido universo encontra “realidade”.

É certo que a realidade proposta pelo universo de Tolkien em “O Senhor do Anéis”, ou, digamos, a realidade do universo da Terra Média (contexto fictício onde se dá a trama) se afasta, e muito, do nosso dia-a-dia composto de coisas previsíveis, ordinárias e, quase sempre, lógicas; mas o que seria da existência dos humanos na terra, se a vida das pessoas não possuísse o tempero dos sonhos e da fantasia, para dar sabor a uma existência cruel e incremente?

Por outro lado, o que seria da ficção se não houvesse a realidade para lhe dar a âncora necessária à credibilidade de suas ilações?

“O Senhor dos Anéis” parte de uma realidade ambientada e contextualizada na era medieval, com seus feudos, condados e conflitos dominiais de terras, mas ao mesmo tempo em que se utiliza da visão mediana e comum acerca da Idade Média, desprende-se das coisas daquele contexto e ergue uma atmosfera inusitada e fantástica, embora igualmente atemorizante e indecifrável.

“As Duas Torres” é o segundo episódio da trilogia, que começa com “A Sociedade do Anel”, cuja versão cinematográfica levantou a cifra de U$ 800 milhões somente em bilheteria e recebeu 13 indicações para o Oscar, dos quais venceu 4, incluindo efeitos visuais.

O filme é intenso, o que não significa dizer que seja profundo. Na verdade, a sua intensidade reside no aspecto visual, em que o espectador experimenta a exacerbação reiterada de Planos Gerais* e de Planos de Conjunto*, inclusive a exibição de tomadas em plongée e contra-plongée* - estas já em franco desuso.

A utilização de Planos Gerais no filme justifica-se pela exuberância da paisagem e pela vastidão do espaço terreno, como que a significar a finitude humana ante a infinitude do universo, ou mesmo a desolação e a fragilidade da condição humana perante a impetuosidade do mal.

Aliás, o cerne do enredo é justamente a eterna luta do bem, representado por Frodo (Elijah Wood) e seus companheiros “hobbits” Sam (Sean Austin), Aragorn (Viggo Montensen) e o arqueiro Legolas (Orlando Bloom), que ainda contam com o poderoso Gandalf (Ian McKellen), contra o mal, personificado pelo poderoso Saruman (Christopher Lee) e pelo invisível Sauron.

O filme, sem dúvida, até que seria um bom espetáculo de efeitos sonoros e visuais, com personagens horripilantes e exagerados recursos pós filmagens, se não fosse mais que risível ver os pobres atores (alguns shakespearianos) contracenando consigo próprios, para somente depois da montagem do filme terem uma criatura qualquer fazendo a contracena ou uma macaquice qualquer.

Igualmente hilário (e desconcertante!), é uma tal de Barbárvore (árvore que anda, fala e possui consciência política, ehrrr...), cuja presença no filme confesso que não entendi, pois a meu ver o filme andaria bem melhor sem esta mancada cômica.

Enfim, o filme “O Senhor dos Anéis - As Duas Torres” não pode ser rechaçado apenas pelo fato de ser uma ficção, pois enquanto tal cumpre a verdadeira essência do cinema e elabora com certo estilo o universo literário de Tolkien; se o rechaçarmos, será apenas porque seu diretor perdeu ou não encontrou o elo necessário de realidade, que dá credibilidade à ficção.


Jorge Coimbra, 07.02.2003.

  • Plongée: é uma palavra francesa que serve para designar uma tomada de câmera de cima para baixo, que denota um olhar de superioridade e tem o efeito de “esmagar” o que é visto.
  • Contra-plongée: é o inverso da tomada em plongée. A cena é exibida de baixo para cima e denota inferioridade em relação ao que é visto.
  • Plano geral (PG): é a tomada de câmera que mostra o conjunto de um cenário ou uma ampla paisagem.
  • Plano de conjunto (PJ): é a tomada de câmera que mostra um grupo de personagens.