Só se for agora, mestre

Ele tinha pressa para falar, para explicar de um jeito bem nordestino, com as palavras saltando do peito como se apressadas para pegar o último trem, tudo o que achava importante para o momento. Perguntava e respondia ao mesmo tempo; não tinha paciência para gente demorada pra pensar.

Antes que se pedisse, ele atendia. Vivia a solidariedade sem se dar conta do tamanho de seu coração. Bastava que alguém precisasse de ajuda e ele prontamente empenhava o corpo num gestual de afirmação imediato, sem parar pra pensar em seus próprios afazeres. “Comigo não forga nada”, e pronto, saía a resolver as coisas num leva e traz sem cansaço.

Agoniado com as coisas irresolutas, depositava nas plantas - amava seus jardins e arvoredos - os melhores sentimentos. Tinha orgulho, satisfação em mostrar cada pé de árvore plantada, cada muda cultivada, cada flor desabrochada. E elas vinham de tão longe que até pitombeira dos quatro cantos tem plantada em sua beira de rio.

Vivia assim: bermuda, camisa pólo e chinelos. Traje de todo dia, para qualquer ocasião. Traje de uma vida simples, sem nenhuma vocação para superficialidades. Vida de quem conhece a seca do sertão, o singelo cotidiano de uma cidade do interior do Nordeste, a simpática Tracunhaem, no estado de Pernambuco, onde passou a infância de menino pobre.

Lutava, às vezes num silêncio triste, que se expressava no olhar assim desalentado, contra as saudades da família, dos tempos idos, da companheira firme e fiel dos momentos mais inacreditáveis de sua vida cheia de verso e prosa.

Lutava contra uma parte dele que lhe escapava à razão. Tinha o peito repleto de sentimentos palpitantes, irrequietos como ele e assim, ao lapidar sua alma dos embaraços da vida, muitas vezes fraquejava como um menino perdido em seu próprio esconderijo de criança.

Voltava sempre, e nesses regressos trazia o homem de coração generoso e puro que habitava dentro dele, disposto a recomeçar mais uma vez, plantando mais sementes de amor, cuidando mais dos seus, mais disposto a auxiliar aos outros.

Era assim com gente, com bicho e com planta. Na matéria de igualdade era “mestre”, na matéria de solidariedade era “mestre”, na matéria de acolhimento ao outro era “mestre”. Mestre na matéria de ser o “vovô careca”.

Sabia o momento de reconhecer as coisas de Deus, sem dizer uma palavra erudita sobre elas. Foi assim que se aninhou nos braços da sua última viagem nessa existência. Foi fechando a conta, fazendo os últimos balanços, resolvendo as pendências do coração até que fechou os olhos e esboçou um silêncio de paz.

Seu Eduardo Andrade, o “Mestre”, agora tem outros quifazeres do lado de lá da existência. Tem muito o que contar para sua companheira Mércia, muitos amigos para reencontrar estendendo aqueles braços agitados, dona Olinda, seu Clodoaldo, professora Dayse e tantos que a fila vai ser grande para os cumprimentos. Se duvidar ele se adianta e desata a percorrer a fila naquela pressa engraçada, acabando logo com a ordem estabelecida.

Assim que acabarem os ritos de recepção, certamente ele se apressará em perguntar o que tem pra fazer na nova morada, que ficar quieto será de todo impossível. E quando alguém apontar a tarefa ele irá sacudir a cabeça, dar aquele jeito no corpo, afirmar o punho direito e despachar: “Só se for agora, mestre”.

PS: O veterinário Eduardo José de Andrade, ainda jovem, partiu de Pernambuco nos anos 70 escapando da perseguição imposta aos estudantes pelo Regime Militar. Desde então fixou-se no Amapá, onde criou seus filhos e amou suas netas. Viúvo da advogada agrarista Mércia Maria Salles de Andrade, morreu nesta sexta-feira, 09 de março, na cidade de Recife, vítima de complicações no tratamento do câncer.

Márcia Corrêa
Em 09.03.07

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