“Caranguejadas” no ar
Elson Martins
A iniciativa do governo e dos políticos do Acre em cobrar do Departamento de Aviação Civil e da Infraero mais segurança para o pouso de aeronaves em Rio Branco podia estender-se a outras medidas que beneficiassem a Amazônia. Porque a aviação civil na região, de um modo geral, piora a cada ano em tudo: horários dos vôos, tipos de aeronaves utilizadas, conexões das rotas, preço das passagens e tratamento a bordo.

O risco nos pousos e decolagens é algo com que o Acre convive faz tempo. Durante o governo Geraldo Mesquita (1975/1979) era comum atolar Boeing na pista de pouso construída em cima de um lençol d’água, nas terras do Amadeu Barbosa. Não sei se a questão foi resolvida nos tribunais de Justiça, mas representava na época um calhamaço de denúncias e intrigas que os incautos passageiros nem ao menos suspeitavam.

Na nova pista, noBujari, fala-se na ausência de aparelhos sofisticados como o ILS, que mede a distância dos aviões ao solo na hora do pouso e também se insinua que o terreno é inadequado. Criou-se até uma expressão estranha para os padrões aeronáuticos -caranguejada - para explicar como os aviões são jogados para fora da pista por um vento forte que, em vez de bater de frente facilitando a manobra, ataca dos lados empurrando-os para o mato.

O ex-governador Mesquita, que costumava desconfiar das denúncias levantadas pela imprensa acreana, não acreditava que a pista antiga oferecia perigo. Até que, num de seus retornos de Brasília, o avião em que viajava engoliu meia dúzia de urubus engasgando pelas turbinas em pleno ar. Revelava-se, assim, o risco de manter um matadouro nas proximidades. Pouco tempo depois outro Boeing, ao decolar, trombou com três vacas que atravessavam a pista e só conseguiu pousar, como no primeiro caso, graças a perícia do piloto. Foi a gota d’água para o governo empurrar o matadouro para longe.

Agora tem a inconveniência dos pousos e decolagens “caranguejados”. Mas quem viaja daqui para outros pontos da Amazônia e não apenas para o centro-sul desenvolvido, sabe que existem outras - pequenas, médias e grandes - sacanagens da aviação brasileira contra os passageiros amazônicos. E isso até parece tradição.

No começo dos anos 60 eu trabalhei no Lóide Aéreo (e posteriormente na Vasp) como despachante de terra em Macapá, no Amapá. Era o cara que recebia e despachava aviões atendendo aos passageiros para o embarque. Na época, conversava com os comissários de bordo que contavam histórias do tipo: “Esta é uma rota que a companhia escolhe para treinar pilotos novos, porque os passageiros não reclamam quando eles cometem barbeiragem”. Lembro sempre disso quando testemunho, hoje, pousos malfeitos em nossa região.

Á medida que o tempo passa, percebo que as rotas amazônicas continuam servindo para testes da aviação comercial. Na mais recente viagem que fiz do Amapá para o Acre, a Varig testou-me o tempo todo. Ainda na agência de Macapá, a funcionária informou que a companhia tinha feito mudanças na rota, para melhor. Eu deixaria Macapá às 4h45 e chegaria em Rio Branco às 11h30 considerando a diferença de 2 horas no fuso-horário (para menos no Acre).

Fiquei animado até fazer a primeira conexão em Belém, quando ouvi o serviço de som do aeroporto de Val-de-cãs chamando os passageiros para comparecerem ao portão de Embarque Remoto. Onde é que fica isso? Devidamente orientado por um funcionário, desci uma escada rolante e entrei num ônibus que me levou a um Jet Class fabricado pela Embraer. Tudo bem, pensei, o avião é pequeno mas falam maravilhas dele. Está vendendo como água na Europa e até nos Estados unidos. Mas em vôo, fiquei sabendo que tinha outras duas escalas na rota que eu não contava: em vez de Belém/Santarém/Manaus, o avião faria um desvio para incluir Porto Trombetas, depois de Santarém. E de Manaus para Rio Branco teria ainda Porto Velho.

Chegando em Manaus, entramos na estação de passageiros pela porta dos fundos. Não tinha nem ônibus: caminhamos até um portão, subimos dois lances de escada e chegamos a uma sala de trânsito onde tivemos que nos submeter à inspeção de bagagem de mão. Perguntei ao agente federal se o avião da conexão para o Acre estava no horário. Ele informou que o avião era o mesmo que me transportara desde Belém, ao que, surpreso, quis saber por que, então, o desembarque e a nova inspeção. Ele apenas riu.

Foi então que me dei conta de que era um passageiro cobaia. Porque além da troca do Boeing pelo Jet Class e do acréscimo de duas escalas, eu vinha sendo submetido a uma ração que constava de um minúsculo pão com uma lâmina transparente de presunto acompanhado de um copo de refrigerante, quente. Sem falar que as comissárias ofereciam o “serviço de bordo” com uma ponta de mofa.

Portanto, além das medidas para melhorar a segurança dos pousos e decolagens em Rio Branco, podíamos fazer um movimento amazônico exigindo mais respeito de um modo geral, das empresas aéreas pelos passageiros da região. O pão ração em teste, por exemplo, pode ser substituído por uma tapioca na manteiga, com café preto. É barato e nós gostamos muito.