CARTAS DO ACRE (2)

Caro Correa:

Você leu a coluna do Ancelmo Góes no jornal O Globo, de terça-feira? Não precisa responder, amigo, fiz a pergunta para abrir esta carta com a notícia que encheu a alma dos acreanos e de muitos brasileiros por este país afora: o colunista, que cada vez explora mais (com inteligência) os acontecimentos políticos que cruzam com o mundo social, publicou três fotos (isto não é comum numa só coluna) de uma bela morena de 22 anos, estudante de psicologia em Brasília: uma em que aparece abraçada com o jornalista Zuenir Ventura; uma outra com o deputado federal Fernando Gabeira; e uma terceira, com o governador do Acre, Jorge Viana. Não, Correa, a jovem não é nenhuma celebridade, na verdade foi a primeira vez que apareceu em público de forma tão explícita. Ela fez parte da mesa principal de um seminário promovido no SESC do Rio de Janeiro, para celebrar o legado que Chico Mendes, o líder seringueiro assassinado há 15 anos por sua luta em defesa da floresta acreana, deixou para o país e o mundo.

Bom, não vou fazer suspense: a garota, de nome Shalon Silva, é acreana, filha da ministra do Meio Ambiente Marina Silva e foi ao encontro no Rio representando a mãe, que na última hora teve que cancelar sua participação para atender um chamado do chatérrimo ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil da Presidência da República (será que ele sabe quem é Chico Mendes?). Os demais membros da mesa, sob a mediação do Zuenir Ventura, já estavam sentados quando o cerimonial anunciou a ausência da ministra. Zuenir apressou-se em protestar, disse que “era mais uma razão para ele falar mal do Zé Dirceu”. Mas, logo, o cerimonial anunciou Shalon e a decepção se transformou em agradável surpresa. A menina, esguia e de expressão doce como a da mãe, vestia um vestido preto, tinha os cabelos negros e lisos displicentemente arriados sobre os ombros, e a expressão de quem sabe extrair fortaleza da aparência de fragilidade.

Nem precisa lhe dizer que a mesa e todo o plenário se tocou com sua presença. Eu diria que foi uma presença sábia, com toque da nossa Marina Silva que conhece o charme da filha, pois Shalon foi charmosa o tempo todo, até na sua fala de dez minutos, obrigatória. Falou no estilo da mãe, com simplicidade, verdade e emoção e ainda fez um reparo nos discursos ambientalistas, segundo ela, que tratam do caso do Acre e não incluem as crianças nas lutas que Chico Mendes encabeçou. “Eu era criança e acompanhava minha mãe nos empates”, disse, provocando outro comentário do Zuenir: “Dá pra ver que é filha da Marina, não”?

Depois que a primeira mesa se desfez, chamaram os componentes da segunda que não tinha nenhuma celebridade nem surpresa como a Shalon, mas foi composta por amigos que lutaram ao lado de Chico Mendes de diferentes maneiras, dos anos setenta até seus últimos dias de vida. A mesa ficou com a negra Júlia Feitoza, presidente do CTA, a mais respeitada ONG da Amazônia, criada por acreanos; o primo e companheiro de todas as horas de Chico, Raimundo Mendes, atualmente cumprindo o quarto mandato de vereador na Câmara Municipal de Xapuri; outro grande parceiro, Júlio Barbosa, prefeito de Xapuri em segundo mandato; Ailton Krenac, liderança indígena de prestígio nacional e internacional; e este amigo que vos escreve, que nos anos setenta e oitenta acompanhou jornalisticamente os sonhos e pesadelos do líder assassinado.

Devo admitir, com algum desencanto, que um terço do plenário de 180 lugares, incluindo o pessoal de imprensa, saiu atrás do Zuenir, do Gabeira e da Shalon. Mas o encontro compensou para quem ficou, pela informalidade. Ao ponto de fazer levantar na platéia o excepcional ambientalista Orlando Valverde, de 92 anos, que se entusiasmou e declarou em tom solene que suas visitas ao Acre são lembradas pelo sabor irresistível dos bombons de castanha com recheio de Cupuaçu feitos pela Júlia Feitoza. O que fez o plenário descobrir o homem e seus feitos aplaudindo-o de pé por mais de dois minutos.

Olha, Correa, eu falei lá, com timidez incontrolável, que Chico Mendes foi e continua sendo especial por ter assumido como poucos ou como ninguém a nossa identidade amazônica. Na sua ação e fala, na maneira displicente de se vestir, na desambição pelo dinheiro e a pompa, na generosidade e respeito com que tratava as pessoas, mesmo as que os ameaçavam e, sobretudo, na coragem de dizer em que acreditava e o que considerava importante para quem vive no meio da floresta. Por isso ele encantou o mundo, dialogando com o componente humano e universal que os seres humanos de todo o planeta possuem. Este é o maior legado que nos deixou, é uma lição que nós, amazônidas, temos de aprender a carregar na ponta da língua.