CARTAS DO ACRE (III)

Olá, Correa:

Passei por um longo jejum de Internet, com problemas no meu notebook. Por conta disso andei falhando com minhas contribuições com seu site. Hoje volto à rede, após uma manhã de conversa com um técnico da ADSL que se comunicava por um dialeto inteiramente desconhecido. Eu só acenava com a cabeça dizendo que estava entendendo mas ansioso para que ele liberasse meu computador para o básico: ou seja, escrever esta cartinhas e outras lorotas sobre nossa Amazônia. Andei por aí, como você sabe, na sua, minha, nossa terra passando uns dias. Não me encontrei com todas as pessoas que queria encontrar e até com você foi uma visita tão rápida que nem deu para me inteirar do rombo naquela corte. Mas vou me valendo de sua página na Internet que é uma tentação. Eu sei que você sabe de mais coisa horrenda sobre aquela corte, mas não o censuro por não revelar enquanto não estiver seguro de como aconteceu mesmo. O que me falaram é que um deles colocou o revolver na cabeça do outro e este outro adoeceu gravemente com o susto. Tudo relacionado à partilha de grana.

Matei um pouco de minha saudade da brisa maravilhosa que a natureza oferece aos que vivem nessa foz amazônica, aí no Amapá. Não conheço brisa igual em nenhum outro canto do Brasil e do mundo por onde já passei. Num sábado, fui recebe-la no bar do Ronaldo, um cuiabano com cara hippie que mantém o espírito das gerações dos anos 60/70. O estabelecimento dele no Araxá, o segundo de quem vai na direção do Aturiá e bem de frente para o Rio Amazonas, exibe sinais de um tempo em que a resistência ao regime militar aproximava as pessoas pelos caminhos da arte e da emoção. Lá você encontra pessoas especiais como o Meton Jucá, a Solange, a Maria B, o Mário Jucá entre outros que não se entregam.Também de lá fiquei sabendo que você anda diversificando sua criação de aves silvestres. Vi um bando em vôo sincronizado e apontei dizendo que eram teus patos selvagens, mas o Meton logo me corrigiu, explicando que eram mergulhões que voam sincronizados para quebrar a força do vento e não errar seu alvo quando pescam na chegada da maré.

Por aqui no Acre chegamos ao final do ano sob o signo Chico Mendes. Não posso me queixar da acolhida que tenho tido em minha terra desde o começo de 2003, quando decidi voltar e viver por aqui até o fim dos meus dias. Já recebi três grandes homenagens oficiais: primeiro, passei a fazer parte, por decreto assinado pelo governador Jorge Viana, de um seleto grupo de notáveis; depois recebi a réplica da espada de Plácido de Castro e um diploma que me coloca entre os 100 Acreanos do Século XX, ao lado de personalidades globais como Armando Nogueira, Glória Perez e João Donato, também acreanos; e por último, a homenagem que mais me emocionou, foi oferecida pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Recebi uma placa de acrílico em suporte de madeira distribuída a 36 amigos tradicionais de Chico Mendes. Esta solenidade foi cercada de muita emoção e verdade, com o reconhecimento de pessoas que estavam esquecidas na história do movimento dos Povos da Floresta.

O governador Jorge Viana, na ocasião (dia 22 de dezembro, pela manhã), ao fazer seu discurso me colocou numa sinuca de bico: disse ao povo reunido na nova sede do sindicato, construída com seu apoio, que eu tinha toda a memória do começo desse movimento e não devo guarda-la comigo. Ele, publicamente, estabeleceu o prazo de um ano para que eu escreva o livro do qual tenho apenas definido o título: “Memórias do Conflito”. Ficou registrado em ata o compromisso e desde então sinto calafrios. Falando em livros, os acreanos se danaram a escreve-los nos últimos tempos, um dos quais, “Caminhando na Floresta”, é de autoria do Gomercindo Rodrigues, ex-assessor e companheiro de lutasAinda sobre o assunto livros, quero como amigo da onça lhe recomendar “Trevas no Eldorado”, de Patrick Tierney, que relata como cientistas e jornalistas estrangeiros devastaram a Amazônia e violentaram a cultura Ianomâmi. O autor passou 10 anos investigando para escrever o livro e centra fogo no antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon, considerado o papa da antropologia genética pelas academias dos Estados Unidos, mas que parece mais um maluco sem caráter que coletou sangue dos índios ianomâmi para fazer pesquisas infames acerca de influência da radiação atômica em seres humanos. A maneira como esse Chagnon entra e sai da Amazônia com informações e pesquisas não autorizadas pelas autoridades é revoltante. Em Boa Vista, Roraima, a populaçã0 comenta abertamente a desenvoltura com que os norte-americanos perambhulam pela região da fronteira da Venezuela e a Colômbia, como se já fossem donos do pedaço. Fique de olho em 2004, Corrêa, porque vamos ter muito traalho com esses gringos! Muita saúde e paz para você e sua família.

Elson Martins