CARTAS DO ACRE - IV

Elson Martins

Caro Corrêa:

Espero que tenha voltado de suas anunciadas curtas férias. Fico imaginando o que pode acontecer de pior por aí quando você resolve baixar as armas, ainda que por pouco tempo. Nos últimos dias, só consigo ver o Amapá estirado numa rede, com dengue. Sei que a imagem é esquisita - um Estado de 143 mil quilômetros quadrados, em forma quadrangular com pontas, esticado numa rede - mas não me vem outra com o que leio pelos jornais. Cada vez mais acredito no que o ex-governador e agora senador João Alberto Capiberibe dizia sobre vontade política: tudo de bom ou de ruim que acontece numa administração pública vem daí, dessa vontade política, de fazer tudo ou não fazer nada e até de fazer o errado em vez do certo. O Capi enfrentou coisa pior que a dengue, por exemplo, uma parte da elite amapaense acostumada às vantagens auferidas com o cargo e a grana públicos. Mas a gente viu a vontade e a determinação com que procurou extirpa-la. E agora? Tem alguma vontade política de acabar com a dengue?

Não tenho visto o Amapá na mídia nacional senão pelo lado ruim, como nos velhos tempos daquela família patética com seus filhotes aprendizes. Aliás, você fica divulgando no seu site que ela ainda rola por aí e está sendo resgatada pelo atual governo. Você não está exagerando não? O governador Waldez participou da grande passeata pela avenida FAB, contra os desmandos que aconteciam em 1993/1994. Puxou o cordão dos jovens rebeldes e das professoras maltratadas da época, tanto que se tornou a grande e promissora liderança política para as eleições que se seguiram até obter êxito neste começo de terceiro milênio. Onde se meteu o jovem político, rebelde e engajado na luta em favor das causas sociais? Se está acontecendo coisa pior do que podíamos imaginar, a julgar pelos acordos que fez para chegar ao Governo do Estado, por favor, me poupe de tanta deformidade política. Prefiro sentir saudades da Rita e do Sérgio Andréa, expoentes do PDSA que mereceram puxões de orelha mas por motivos nobres presumíveis.

Voltando a falar de mídia nacional: o Amapá soçobrou, sumiu, pelo menos da mídia que cria esperanças boas. Agora quem brilha sozinho é o Acre, com justificadas razões. Aqui, apesar de alguns excessos de mando, respira-se otimismo. O governador Jorge Viana tem o controle, pode-se dizer, da vida política e administrativa do Estado. Dinheiro tem e geralmente é aplicado em boas coisas. Neste ano eleitoral são muitos e importantes os projetos sociais em execução no interior e também na capital. O prefeito Isnard Leite, do PL, não faz parte da Frente Popular puxada pelo PT mas aceitou parceria com o governo para solucionar alguns problemas crônicos, como o abastecimento de água tratada que é de responsabilidade municipal. Jorge Viana já assumiu o projeto da construção de nova estação de tratamento e anuncia solução para breve.

Uma outra novidade que pode virar exemplo (do Acre para o mundo, como os acreanos gostam de dizer) são o policial da família e o policial voluntário. Esta última categoria é uma estratégia para formar novos policiais com mentalidade diferente daquela que costumamos identificar nos militares. Ao lado dos policiais da família, já treinados, eles antecipam ações para evitar o crime. Uma turma de 600 policiais voluntários está saindo agora de um concurso público. Eles recebem salário, mas atuam como se fossem estagiários em longo prazo.

Outra coisa boa que vem acontecendo neste começo de 2004, aqui na terra do imperador Galvez, é a agitação cultural. Assim como no Amapá a tradição musical é notória, com bons músicos compondo, tocando instrumentos e cantando, no Acre o forte é o teatro (se bem que a musicalidade cresce com várias bandas jovens se formando e ganhando a noite). Atualmente, cerca de 15 grupos de teatro estão atuando com produção de espetáculos. De certo modo, o que favorece a agitação cultural é uma lei estadual de cultura que permite que empresários apliquem parte do que deve ao fisco estadual nos projetos culturais. O valor de isenção atinge R$ 1 milhão ao ano, dividida em parcelas de 5, 10 e 15 mil reais para cada projeto. Uma boa!

No mais, Corrêa, só muita chuva, como de resto está acontecendo em todo o País. No Acre estamos no auge da temporada invernosa que termina em abril. Este ano, o rio que divide a capital Rio Branco em duas, anda preguiçoso: até agora não ameaçou alagação e as famílias que residem nas áreas baixas da cidade se encontram precavidas. Muitas constroem tablados, uma espécie de assoalho provisório a um metro, metro e meio acima do assoalho verdadeiro e se dão por tranqüilas. Anos atrás, durante o carnaval, um folião que se julgava precavido deu um nó de seringueiro nos punhos da rede para deixa-la mais alta, bem acima da alagação. Ao sair do carnaval se meteu nela para um sono pesado. Horas depois, sonhou que estava morrendo afogado num barril de cerveja e não conseguia gritar, que é aquela saída clássica do pesadelo. Só que não era nada de sonho: as águas do rio Acre tinham subido de madrugada e encobriram sua rede. Não sei, de verdade, dizer se ele escapou.