CARTAS DO ACRE -V

Elson Martins

Caro Correia

A novidade desta semana por aqui pela terra do imperador Galvez e de Chico Mendes é o blog (tipo de site pessoal) do Toinho Alves na Internet. É leitura obrigatória para quem vive, gosta e quer saber do Acre, da Amazônia e de muitas outras coisas relacionadas ao pensamento livre, que anda em desuso. Você deve lembrar o quanto lhe falei sobre esse camarada, de como tem o melhor texto e o sentimento mais apurado de nossa imensa região. Não é exagero, mas quem duvida pode visitar o blog (www.oespiritodacoisa.blog.uol.com.br) inaugurado terça-feira, 17.

Para quem não o conhece, Toinho ou Antônio Alves leitão Neto, acreano de boa lavra foi estudante de filosofia na Universidade de Brasília nos anos setenta. Largou o curso e se enfiou na tendência de esquerda Liberdade e Luta (Libelu) por uns tempos, esticando baladeiras contra os generais da ditadura. Retornou ao Acre e aos poucos trocou a militância das ruas para esgrimar com idéias vigorosas e poéticas nos jornais, panfletos e discursos nos movimentos em defesa da floresta. Tornou-se o mais sábio branco da cidade e também dos varadouros mata a dentro e das cabeceiras dos rios. Amigo dos índios, dos poetas (sendo um deles) e dos revolucionários de um modo geral ajudou a criar o PT chegando a exercer o poder em nome da legenda.

Até o ano passado, respondia pela Fundação Cultural Elias Mansour, espécie de Secretaria de Cultura do Acre mas, embora considerado guru do Governo da Floresta de Jorge Viana, trabalhava o setor com minguado orçamento tendo que dar desculpas dar desculpas a jovens enfezados e a admiradores desencantados. Não deu outra: em 2004 pediu demissão e tornou-se ING (indivíduo não governamental) disposto a gastar o tempo com as idéias criativas e a genialidade que dele vertem feito enxurrada. Para marcar a nova fase ligada a terra e ao Santo Daime, doutrina em que é graduado no Alto Santo, centro do mestre Irineu, comprou (a prazo) uma colônia de 12 hectares e abriu um açude para criar cascudos e bodós. Alguns amigos já o viram trajado de trabalhador rural pegando um ônibus para sua Terra (nome da colônia) na periferia da cidade.

Quando, porém, o assunto é florestania ou identidade acreana ou ainda desenvolvimento sustentável aqui e alhures, as instituições governistas e não governistas o convocam para qualificar a discussão. Ainda ontem ele participou de um encontro para atualização do zoneamento econômico ecológico do Estado, saindo-se com sugestões do tipo: “o técnico que faz o mapa do zoneamento e da ocupação territorial não sente a picada do carapanã”; “quando se fala de determinada tribo indígena é preciso especificar bem qual é, não podemos sair por aí pintando cearense de urucum”; “o governo do Estado tem que domesticar a Funai e o Ibama para que esses órgãos parem com a sem-vergonhice da corrupção”.

Do seu blog de estréia recortei um trecho que dá bem a idéia do estilo de conversa que leva com os leitores. Diz ele: “Amigo leitor, descalce as sandálias. Você está entrando em território sagrado. Esta é a terra dos altos rios, dos riozinhos, dos igarapés, das nascentes e vertentes. O lugar onde a água brota da terra.

Nas cabeceiras do rio Acre, acima de onde moram os Jaminawa, há um lugar chamado Gleba do Abismo. Há quem diga que lá é o fim do mundo. As nascentes do Iaco, Envira, Tarauacá, Jordão e Breu estão guardadas por tribos desconhecidas que perambulam pela floresta armadas com arco e flechas. Quem sobe o Moa, afluente do Juruá, vê o rio saindo de dentro da montanha. É nesse parto que nasce a Amazônia”.

Aos 47 anos, mulher e um casal de filhos em que a menina de 12 anos antecipou-se a ele na construção de um blog e o menino mais novo o desafia numa partida de xadrez, Toinho é uma voz da Amazônia que dá gosto ouvir, e que nos deixa esperançosos de que vamos vencer novas e boas batalhas, até que a gente se livre da invenção que os europeus plantaram em nosso espírito para negarmos o que somos e seremos com vantagens com as que vivenciamos. Em outras palavras: nós amazônidas da cidade e da floresta possuímos de verdade um imaginário que não “tá nem ai” para mercados globais e outras bocas da paranóia urbana do mundo.