CARTAS DO ACRE -VI
Elson Martins


Peço desculpas aos leitores por ficar tanto tempo sem escrever neste canto a mim reservado. A justificativa é a recomendada por velhos jornalistas: problema de coluna. Quem escreve uma coluna aqui, outra ali e outra acolá acaba sem assunto. E eu não sou nenhum Rubem Braga ou Zuenir Ventura para produzir pérolas sobre a falta de assunto. Mas esta semana meu amigo Corrêa Neto aplicou-me puxão de orelhas cobrando minha contribuição: “Escreva antes que o Amapá acabe”- sentenciou. Sendo assim...

Meu caro Corrêa, embora esteja observando de longe, imagino que o Amapá não vai acabar tão cedo! Prefiro acreditar que desaparecerão antes os políticos que promovem essa imagem desesperadora. Motivos para desesperança, sei que não faltam. Tenho lido sua página na Internet, também o jornal “Folha do Amapá” e nos últimos dias, nos jornais e revistas nacionais, toda a tramóia do PMDB para cassar os mandatos de Capi e Janete no Senado e na Câmara Federal. Presumo que pessoas como você e tantas que vivem por aí, sabendo como se armam essas coisas para impedir que prevaleça o bem nessa terra, precisam de muito estômago e perseverança.

Outro dia escrevi um texto na Folha no qual citei o filósofo e escritor francês Edgar Morin, que apresentou numa entrevista o princípio de Hölderlin: “Lá onde cresce o perigo, cresce também o que salva”. Morin, que teve sua entrevista publicada pela Editora Unesp, de Belém, acrescenta que “o perigo crescente leva a uma tomada de consciência que provoca um sobressalto”. Na seqüência, ele arremata: “Creio, portanto, que, de um modo trágico, quanto mais nos aproximamos do perigo, mais teremos chance de sair dele”.

Não estamos falando de nenhuma novidade, não é mesmo, Corrêa? A contradição não esteve presente nos textos dialéticos dos gurus da esquerda, sempre?

Tenho pensado que um dos graves problemas da atualidade é a pressa com que estamos vivendo nossos dias hodiernos. A pressa e o volume monumental de informações, códigos, “verdades” a serem seguidas etc. - nos empurram para o esquecimento das coisas boas e essenciais que já sabíamos. Eu tenho mania de cultuar alfarrábios e não me queixo nem me arrependo disso. Há mais de 30 anos recorro, aqui e ali, à leitura de textos do Krishnamurti, filósofo indiano-inglês que levitava sobre a dúvida.

Recentemente, comprei seu “Diário” editado pela Editora Cultrix, de São Paulo, encontrando afirmações sublimes como esta: “A força e a beleza da flor estão em sua total vulnerabilidade. Os ambiciosos desconhecem o belo”. Gosto também desta outra: “Não se pode definir ou interpretar o sagrado”.

Estou convencido, Corrêa, que ao caboclinho amazônico das beiras de rio e dos entranhados da mata essas mensagens são percebidas e absorvidas como manteiga em pão quente. Vejo mais dificuldades na percepção dos letrados, geralmente, mais preocupados com as definições que com os fatos que mudam a toda hora no espaço e no tempo. Nossos seringueiros acreanos são mestres na percepção dos fenômenos naturais que a vida expõe. Bem como das artimanhas políticas. Muitas vezes eles inovam se passando por bestas: ouvem, com a mão no queixo, durante horas e horas algum imbecil falando e dão a impressão que estão se convencendo de tudo. Mas mal o sujeito dá as costas, eles se entreolham, riem e desabafam um grunhido seco: “Gua!” - desaparecendo nos varadouros da floresta.

Estou falando essas coisas para demonstrar minha crença de que a situação do Amapá não vai permanecer como os “sabidos” de plantão imaginam. Não se pode subestimar a consciência, a sabedoria, a vontade e sobretudo a capacidade de arrebentar grilhões, de um povo como o nosso com implacável instinto de sobrevivência.