Desconforto no ar


Há uns dois meses, creio, os senadores Tião Viana (PT-AC) e João Capiberibe (PSB-AP) se pronunciaram no Congresso chamando a atenção para uma série de desconfortos que as empresas aéreas brasileiras promovem nas linhas amazônicas: horários inconvenientes, excesso de conexões de um estado para outro, troca de aviões, atrasos, mau serviço de bordo e outras coisas mais que os passageiros da região sofrem, sem falar nas tarifas caras.

Pouco adiantou. Eu, como passageiro que se desloca com freqüência entre os estados do Amapá e do Acre, posso testemunhar isso sem erro. A Varig parece ser a companhia mais petulante: vive a trocar rotas, horários e tipos de avião sem reduzir as tarifas se importando pouco com os passageiros. Na segunda-feira eu fiz o percurso Macapá-Rio Branco em 12 horas, quando poderia tê-lo feito em seis.

A maratona foi a seguinte: saí de Macapá num Boeing da Varig às 5h45 (3h45 de Rio Branco), chegando a Belém às 6h30. Ali, tive que saltar e aguardar um avião Foker da TAM que me levaria a Manaus passando por Santarém. A partida estava prevista para 11h35, mas ao decolar, a aeronave voltou da cabeceira da pista porque o computador de bordo acusava um problema qualquer. O comandante pediu desculpas aos passageiros porque teria que submete-la a uma manutenção.

Cerca de uma hora depois, o comandante voltou a falar para dizer que tinha sido "alarme falso" do computador. Só que pouca gente acreditou nisso e pelo menos 15 dos 50 passageiros embarcados, decidiram sair, apesar da comissária ter avisado que não poderia retirar suas bagagens. Estabeleceu-se um certo tumulto a bordo, com vários passageiros telefonando pelo celular (o que é proibido) para suas famílias para perguntar se deviam sair também. Um que estava numa poltrona próxima da minha, encerrou a sua conversa assim:

-Ih! Agora não tem mais jeito. A comissária já fechou a porta do avião e estamos taxiando. Seja o que Deus quiser!

Eu embarquei na carona dele e tentei arranhar uma Salve Rainha, na versão que aprendi ainda no seringal há 50 anos. E nunca viajei tão sobressaltado! Tive até vontade de esfolar um garoto que escapou da mãe e saiu correndo de uma ponta a outra do avião, dando a impressão que o aparelho estava despencando.

Isso aconteceu no trecho Belém-Santarém. No trecho seguinte, Santarém-Manaus, o comandante avisou pelo sistema de som que o vôo era seguro, mas argumentou mal repetindo três vezes que qualquer tripulante que autoriza um vôo inseguro corre o risco de responder a processo judicial e perder muito dinheiro. Pensei que o cara ia falar que o vôo era seguro porque também ele e toda tripulação tinham amor à vida.

Bom, em Manaus trocamos novamente de avião. Saltei do Foker da TAM e sai correndo para embarcar num Jet Classic da Varig que iria até Cruzeiro do Sul passando por Porto Velho e Rio Branco. Fui o último a embarcar, e encontrei um senhor sentado na poltrona 13 A, que deveria estar me aguardando. Mais um pequeno atraso até o comissariado convencer alguém a viajar na cabine com os pilotos.

E assim cheguei a Rio Branco às 15h45, com uma fome doida. Porque de Macapá até aqui, me ofereceram o mesmo sanduíche vagabundo como café, almoço e lanche.
Olha, eu até dispensaria a comida, não ligaria para o olhar de pejo que as comissárias oferecem à gente simples da Amazônia e nem faria questão de luxo na aeronave, mas gostaria que as companhias fizessem o trajeto num tempo adequado e por um preço justo.

A questão está colocada: o povo da Amazônia precisa ser melhor atendido pelas empresas de aviação comercial. Sugiro que treinem comissárias nascidas na região, troquem a sanduíche de rato por uma tapioca ou uma cuia de açaí e estabeleçam tarifas condizentes com os serviços que oferecem. Quantos aos políticos da região, vocês vão ficar viajando na classe executiva, achando que alguma coisa melhorou?

(Elson Martins)